Religiões afro também precisam ser superadas? : Ciências Humanas
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Religiões afro também precisam ser superadas?

Filosofia, Sociologia, Antropologia, Psicologia...Como as Ciências Humanas podem ajudar a compreender o comportamento do ser humano frente ao transcendente, ao sagrado?

Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 20 Jun 2009 23:33

Estava lendo esse artigo sobre a questão do fetichismo e me deparei com uma dúvida e como tenho amigos mais conhecedores nesse assunto vou pedir mais informaçãos.

Uma das questões que surgem hoje em dia com os argumentos de neo ateus como Dawkins é que toda forma de religiosidade é algo sem sentido e que devemos superar essas superstições. Eu realmente concordo com ele quando ele ataca de forma magistral as religiões que incentivam o fundamentalismo, mas ele não se contém só com isso...ele categoricamente diz TODA forma de religiosidade é uma perca de tempo.

Aí entro com essa pergunta reflexiva para quem professa as religiões afro: é pura perca de tempo participar dessa forma de demonstração de fé? As religiões afro são superstições que devem ser superadas? Dawkins tem razão ao dizer que isso somente se deve aos memes de controle mental e que toda uma cultura ancestral deve ser abolida porque simplesmente professa crer em algo?

Lembrei-me então de algo que comprara antes de iniciar a investigação no Tombenci, mas quando já pesquisava o candomblé. Em 1982, ao visitar um dos mercados da cidade de Salvador — capital do estado da Bahia, tida como o maior centro da cultura afro-brasileira —, resolvi comprar uma pequena estatueta de Exu — uma divindade muito especial, o mensageiro dos demais orixás, o "Mercúrio do candomblé", como Bastide o descreveu em alguma parte. Com alguma dificuldade, uma vez que não havia nenhuma desse tipo entre as estatuetas das demais divindades, consegui encontrar uma, medindo cerca de 15 centímetros, feita de ferro e, como é comum, extremamente fálica. Levei-a para casa, onde passou a ocupar um lugar na sala do meu apartamento.

Decidi então pedir a Gilmar que também "preparasse" o meu exu a fim de que ele me protegesse. Enviei a minha estatueta para Ilhéus; ao retornar ao campo, encontrei Gilmar, que me avisou de que o "trabalho" estava quase pronto e que agora precisávamos de "baptizar" o exu. "Aliás", perguntou, "como você vai fazer para guardá-lo em casa?" Perante a minha perplexidade, explicou que, uma vez "preparado" ou "baptizado", o exu exigiria oferendas periódicas: azeite de dendê, cachaça, mel e, eventual e especialmente, o sangue de algum animal. Como poderia eu oferecer essas coisas vivendo num apartamento? Seria bem melhor, completou Gilmar, mantê-lo na casa do exu do terreiro, onde, de tempos a tempos, ele poderia "alimentá-lo". Além de ser o sacrificador principal, Gilmar é justamente o responsável pela casa do exu do Tombenci. Dei-me conta então de que o exu se estava a transformar em algo muito diferente do que fora até então.

Como Exu é o mensageiro dos orixás, cada orixá — e, consequentemente, cada filha-de-santo — tem o seu próprio exu, que deve ficar em local separado da divindade. Por isso, todos os terreiros de candomblé possuem uma casa do exu, onde estão "assentados" ou "plantados" todos os exus dos membros iniciados ou em iniciação. Procedemos então ao ritual, durante o qual o exu recebeu as devidas oferendas, incluindo o sangue de um galo degolado sobre a estatueta. Além disso, recebeu um nome, que não posso revelar, uma vez que, conhecendo-o, qualquer um poderia usá-lo contra mim. Apenas Gilmar, a mãe-de-santo do terreiro e eu mesmo conhecemos esse nome, que só devo pronunciar em situações em que a sua ajuda é essencial. Sendo atendido, devo, é claro, retribuir com novas oferendas e sacrifícios.

http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0003-25732009000100005&lng=pt&nrm=
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor Jerry em 21 Jun 2009 00:10

O candomblé é uma religião que trabalha com simbologia. Como se acredita que o axé que nos mantém vivos veio de alguma divindade, chamada orixá, temos a obrigação de restituir o axé que consumimos, na forma de sacrifícios. Caso não o façamos, estaríamos sendo ingratos para com a divindade que nos vivifica. Isso pode até não ser verdade, mas contém uma verdade: há um princípio de troca, de restituição, de simbiose, que rege o universo, a natureza e as relações humanas. O rito - no caso, o sacrifício - é uma atualização, ou uma dramatização, desse princípio.

Afora os sentidos metafóricos e simbólicos, esbarramos no campo da fé. Não há o que argumentar, no sentido de convencer a alguém que as coisas são realmente assim. E nem é preocupação do candomblé enquanto religião fazer proselitismo. Posso ser idiossincrático, e dizer que eu não estou propenso a pensar que as coisas sejam realmente assim, tão literais. Penso que o papel fundamental da religião mistura-se com a cultura, tendo por função simbólica nomear o mundo que nos cerca, atribuir-lhe significados, e, principalmente, marcar uma diferença frente a outros grupos humanos. Enfim, religião, enquanto cultura, diz respeito a se marcar diferença e identidade. A saber-se individualizado, não perdido numa massa genérica.

Há quem pense que é meramente superstição a ser superada. Mas eu pergunto em que o mundo estaria melhor se isso acontecesse, não apenas em relação ao candomblé, mas a toda forma de expressão religiosa em geral. Desde que não se oponha aos avanços do conhecimento científico - que é também simbólico, e preenche em muitos aspectos as necessidades religiosas do homem - o poder simbólico da religião é importante para nos definir enquanto homens. E, por que não, enquanto deuses...

A própria separação entre religião e outros aspectos da vida é uma invenção moderna. Para os antigos, e para as sociedades não ocidentais ou ocidentalizadas, não existe isso de que a religião é um momento específico, separado, à parte, do meu cotidiano. A religião mistura-se a tudo: alimentação, sexo, nascimento, morte, ócio, trabalho, etc. Essa tendência aristotélica de classificar o mundo em distintas gavetas é estranho ao pensamento primitivo - no sentido de primordial.

Eu penso que a fé - ou a superstição - é perigosa quando a vida de alguém corre perigo. Quando, por exemplo, alguém acredita que o simples poder da fé em Cristo ou Oxalá é suficiente para curar uma doença; quando se acredita que basta tomar um banho de folhas ou rezar tantos padres-nossos para se ter saúde; quando se crê que é suficiente fazer um ebó (oferenda) ou doar o dízimo. Enfim, quando se desconsidera o poder de cura que o ser humano - também ele um deus - tem desenvolvido através do que se convencionou chamar de ciência...
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor Abenildo em 21 Jun 2009 03:24

Depois do que o Jerry postou, não há muito o que se acrescentar! Parabéns Jerry!
Apenas vai um pensamento meu. Fundamentalismo, seja ele qual for, deve ser sim questionado e combatido. Ao meu ver, não se pode esperar que um Orixá, venha resolver todos os problemas da vida de um devoto. Tem gente que faz o santo esperando emprego, namorado, saúde, enfim, uma panacéia. Logicamente, tais coisas só veem do esforço de cada um, o orixá pode dar uma força, mas neguinho tem de ir atrás!
Um exemplo: No barracão que eu frequento, uma menina, filha de Omulu, estava sofrendo horrores com uma dor de dente. Aí uma figura veio com a pérola: "Pede a teu pai pra ele te ajudar!" Brincadeira né? Eu disse: "Meu grande, Omulu é dentista? Peça pra seu pai me ajudar a extrair teu dente! Fica mais fácil tanto pra ele quanto pra mim!"
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 21 Jun 2009 08:42

Sabia que meus colegas iriam me dar uma aula! :4

Mas, gostaria de novamente pegar algumas citações sob o olhar do neo ateísmo onde Richard Dawkins desponta como uma referência (não para mim e gostaria de salientar isso) e tentar tirar novas reflexões.

Abenildo cita:
Apenas vai um pensamento meu. Fundamentalismo, seja ele qual for, deve ser sim questionado e combatido.

Estou com você nesse pensamento também Abenildo. O termo fundamentalismo está obviamente mais direcionado a toda forma de crença que não respeite outras e que faça da vida de pessoas um risco para a sociedade e para si mesma. Como então designar essas mesmas particularidades(intolerância) para uma não crença (em Deus, deuses)? Um termo usado ultimamente é neo ateus, mas eu prefiro chamar de ateus passionais ou de wikipédia.
Então salientando bem o que coloco aqui: existem em todos os meios de crença e não crença as pessoas equilibradas e as que exageradamente acham que algo deve deixar de existir por ser ultrapassado ou por demais supersticioso.

Abenildo cita:
Ao meu ver, não se pode esperar que um Orixá, venha resolver todos os problemas da vida de um devoto. Tem gente que faz o santo esperando emprego, namorado, saúde, enfim, uma panacéia. Logicamente, tais coisas só veem do esforço de cada um, o orixá pode dar uma força, mas neguinho tem de ir atrás!

Voltando para as análises e conclusões modernas dos neo ateus e que tem como expoente Richard Dawkins tal pensamento carece de provas científicas e mostra apenas uma fase infantil (culturalmente) que não foi ultrapassada. Obviamente Dawkins nunca falou das religiões Afro (pelo menos nunca li) e nem sei se ele sabe se existe essa diversidade, pois limita-se a falar do cristianismo anglo americano, mas para ele isso(pedir ajuda a um Orixá) é algo bem semelhante a um católico pedir ajuda a um santo ou mesmo um evangélico pedir ajuda ao espírito santo.
Então para ele (Richard Dawkins) qualquer tentativa de se comunicar o divino ou com o transcendente é pura perca de tempo e mais perca de tempo ainda observar rituais para algo que não existe, pois ele cita que posso imaginar um bule voando no universo e aí invento a minha crença.
Seria então as formas de ritos e expressão da fé tanto nas religiões afro, cristianismo e em TODAS as formas de religiosidade apenas aquela teoria do "Deus das lacunas" tão bem lembrada por Dawkins?
Cito aqui o próprio Dawkins:
As pessoas que partem da estupefação pessoal com um fenómeno natural direto para a invocação apressada do sobrenatural não são melhores que os tolos que vêem um ilusionista dobrando uma colher e assumem que se trata de um "paranormal".
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 21 Jun 2009 08:58

Jerry cita:
Afora os sentidos metafóricos e simbólicos, esbarramos no campo da fé. Não há o que argumentar, no sentido de convencer a alguém que as coisas são realmente assim. E nem é preocupação do candomblé enquanto religião fazer proselitismo.

A questão metafórica e simbólica é amplamente abordada por intelectuais e cientistas de primeira linha e nos dias atuais evoluiu e ganhou o seu devido e merecido espaço. Obviamente o que deu mais visibilidade foi Freud, mas muitas de suas teorias foram complementadas e aperfeiçoadas. Ele se referia ao símbolos dessa maneira:
Freud citação:
"As verdades contidas nas doutrinas religiosas são, afinal de contas, tão deformadas e
sistematicamente disfarçadas", escreve Sigmund Freud, "que a massa da humanidade não
pode identificá-las como verdade. O caso é semelhante ao que acontece quando contamos a uma criança que os recém-nascidos são trazidos pela cegonha. Neste caso, também estamos dizendo a verdade através de um expressão simbólica, pois sabemos o que essa grande ave significa. Mas a criança não sabe. Escuta apenas a parte deformada do que dizemos e sente que foi enganada; e sabemos com que freqüência sua desconfiança em relação aos adultos e sua rebeldia têm realmente começo nessa impressão. Convencemo-nos de que é melhor evitar esses disfarces simbólicos da verdade naquilo que contamos às crianças, e não privá-las de um conhecimento do verdadeiro estado de coisas adequado a seu nível intelectual."( Sigmund Freud, The
future of an illusion (tradução de James Strachey e outros), Standard Edition, XXI, The Hogarth Press, Londres, 1961, pp. 44-45. (Original:1927.))


Já modernamente Jung e Joseph Campbell interpretam a simbologia de outra forma.
Campbell citação:
“Esse é o segredo do símbolo – o símbolo espiritual, mitológico. O símbolo em si deve ser transparente à transcendência. Um deus é uma personificação de uma energia que é natural e vem ou através do mundo natural externo, ou do mundo de nossa natureza interior. Quando vem do mundo de nossa natureza interior, aparece como a imagem do sonho e, depois, do mito. Quanto mais fundo você mergulha, mas próximo chega da ordem mítica; quanto mais raso é o mergulho, mas próximo você fica da ordem da cabeça”.


Só para terminar com a frase de Jerry sobre o não proselitismo do candomblé (louvável e equilibrado) mas lembrando que o ponto em questão é se a análise de Dawkins acha isso suficiente para sair de suas críticas, ou seja, para Dawkins TODA forma de religião, religiosidade, culto a deus ou deuses não passa de atraso para a humanidade.
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 21 Jun 2009 09:08

Jerry cita:
Posso ser idiossincrático, e dizer que eu não estou propenso a pensar que as coisas sejam realmente assim, tão literais. Penso que o papel fundamental da religião mistura-se com a cultura, tendo por função simbólica nomear o mundo que nos cerca, atribuir-lhe significados, e, principalmente, marcar uma diferença frente a outros grupos humanos. Enfim, religião, enquanto cultura, diz respeito a se marcar diferença e identidade. A saber-se individualizado, não perdido numa massa genérica.

Qual o limite onde posso individualmente dizer que algo é literal ou se já está passando dos limites? Lembrando que faço todo um questionamento baseado no ponto de vista neo ateu de Richard Dawkins.
Quando um umbandista, candoblecista, budista, cristão consegue esse equilíbrio de perceber que nem tudo que se aprende dentro do seu contexto religioso não é literal?
Da mesma forma como observamos cristãos lunáticos, trambiqueiros com certeza podemos também achar budistas, candoblecistas e outros "istas" da mesma forma.
Richard Dawkins diz que a pessoa ter uma visão equilibrada de sua religião ou religiosidade pouco importa, pois é uma minoria que não altera nada. Eu me pergunto se isso realmente é algo a ser levado em consideração?
Fico imaginando nossas festas de São João sendo acabadas por conter apenas supestições, nosso carnaval interditado, pois mesmo sendo a festa profana é uma consequência de uma festa religiosa. Nossa cultura sendo desmembrada pois nossa carga hereditária veio das várias religiosidades indígenas e africanas, mas sabem como é Dawkins:
TODA forma de religiosidade, de cultura, de culto, de algo que lembre o transcedente deve ser abolido!
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 21 Jun 2009 09:20

Jerry cita:
Há quem pense que é meramente superstição a ser superada. Mas eu pergunto em que o mundo estaria melhor se isso acontecesse, não apenas em relação ao candomblé, mas a toda forma de expressão religiosa em geral. Desde que não se oponha aos avanços do conhecimento científico - que é também simbólico, e preenche em muitos aspectos as necessidades religiosas do homem - o poder simbólico da religião é importante para nos definir enquanto homens. E, por que não, enquanto deuses...

Jerry excelentes colocações. Eu iria perguntar se você concordava com as idéias de Dawkins em colocar TODA forma de expressão religiosa como uma tolice, mas esse parágrafo define tudo (se não me corrija por favor :4 ).
Se pude compreender sua fala então poderíamos dizer que em todas ou quase toda forma de religiosidade existe e é necessária para a contribuição de um mundo melhor?
Mesmo nas grandes religiões é possível ter pessoas que sejam equilibradas e que tenham uma visão de mundo que visa superar divisões, intolerâncias?
Mesmo grandes religiões em que muitos cometem loucuras baseados em livros e ritos sagrados podem através da informação, do respeito e da mudança serem direcionadas para uma outra visão de mundo (evidentemente o tempo de resposta disso pode levar séculos).

Dawkins não quer saber de candoblecista ecológico, de cristão cidadão, de budista empreendendor...segundo ele não podemos ir adiante pois ele generaliza TODOS e TODA forma de religiosidade como uma praga, uma mancha, atraso.
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor Jerry em 21 Jun 2009 09:52

Pascoal, no geral você entendeu, sim, meu pensamento. Só discordo levemente dessa sua leitura de minhas palavras:

Pascoal escreveu:Se pude compreender sua fala então poderíamos dizer que em todas ou quase toda forma de religiosidade existe e é necessária para a contribuição de um mundo melhor?


Não, não acho que a religião, de forma geral, torne o mundo necessariamente melhor. Mas, por outro lado, a abolição de toda forma de religião também não o tornaria necessariamente melhor.

Onde se tentou abolir a religião, as pessoas encontraram outros meios para dar vazão à sua necessidade simbólica de definir o mundo. Vide o caso do marxismo, por exemplo. A idéia de paraíso foi substituída pela idéia do comunismo, onde Marx e Engels se tranformaram em profetas maiores - e um Lênin em profeta menor -, a burguesia demonizada, o proletariado apresentado como a classe salvadora, o Armagedom nada mais seria que a revolução proletária... São apenas algumas analogias, mais evidentes. Outras subjazem.

Enfim, talvez um dia a humanidade prescinda de religião. Mas isso não pode ser imposto de cima para baixo, por decreto. Talvez faça parte de seu caminhar natural. Talvez não.
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor André Felix em 21 Jun 2009 10:00

A humanidade já deveria estar suficientemente amadurecida para assimilar uma religiosidade conceitual, isenta de símbolos, rituais, sacríficios e tabus totalmente culturais, que revelam as subjetividades características de um povo, de uma época. A essência é o que importa. E ela é 100% conceitual, é universal e atemporal, está acima das culturas de cada povo ou época.
Eu acho as religiões afro-brasileiras, bem como todas as religiões que usam sacríficios de animais ou humanos, como fazem os radicias islâmicos com os seus terroristas suícidas, ou o cristianismo, com o seu culto à um cadáver e seu apego por criar mártires físicos ou psicológicos, que sacrificam os seus desejos e vontades principalmente sexuais, totalmente repugnantes.
A pessoa precida sair do seu dia-a-dia, abstrair-se da realidade, aprender hebraíco, sânscrito ou palavras de algum dialeto africano, aprender danças e cantos, para entrar num processo de espiritualização? Precisa adotar uma postura de entreguismo submisso perante líderes, padres, pastores, pais-de-santo, livros sagrados e divindades míticas? Eu sempre vejo isso com desconfiança. São formas de auto-hipnose, de condicionamento, de adestramento. Tanto que a pessoa fica prisioneira. Deve sempre repetir, voltar, "alimentar" a divindade, os sacerdotes, o comércio, enfim. É um tipo de dependência. Três dias por semana os crentes aqui em frente de casa repetem quase a mesma coisa e saem da "igreja" com aquelas caras de pessoas com a convicção de um sonâmbulo. Aprontam a maior gritaria histérica e depois saem aliviados. Simplesmente repugnante. É um vício, uma dependência, a dose precisa se repetir indefinidamente.
Na minha opinião ....
Uma religião verdadeira conduziria os seus postulantes, mesmo que lançasse mão de símbolos, por um tempo determinado, apenas até o momento em que eles atingissem um grau de consciência ideal, amadurecido, claro e ampliado. Após essa iniciação a pessoa estaria pronta para conduzir a sua vida, sem precisar renovar votos, repetir a "dose" do que quer que seja, ficar dependente de divindades "mandonas", dominadoras, que ameaçam e chantageiam de uma forma ou de outra. Mas a dependência e a manuntenção da imaturidade, de um senso crítico submissamente infantilizado, gera lucro e nenhuma religião quer abrir mão disso.
O pensamento é o ensaio da ação.
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor Jerry em 21 Jun 2009 11:53

Muito coerente sua postagem, André Felix, e em muitos momentos penso como você, especialmente no que se refere ao candomblé, religião que professo.

Apenas retificando: no candomblé usam-se línguas africanas nos ritos, e não dialetos. Trata-se de um resquício de eurocentrismo, que tende a ver a África como incapaz de produzir até mesmo línguas complexas. Lá naquele continente existem centenas de línguas, que se desdobram em outras centenas de dialetos. Mas o que se fala nos rituais dos candomblés brasileiros são línguas.

Por exemplo, no candomblé de nação Angola se fala o Kimbundo, que é uma língua Banto da Família Congo, que por sua vez, juntamente com tantas outras, é agrupada numa família maior chamada Níger-Congo, que por sua vez pertence ao tronco linguístico Congo Cordo-Faniano. Além desse tronco maior, há outros três, com seus respectivos desdobramentos em famílias e subfamílias linguísticas.

Além do Kimbundo, da nação de candomblé Angola, utilizam-se ainda as línguas Iorubá nos candomblés de nação Ketu, e o Ewê-Fon, nos candomblés de nação Jeje.
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor André Felix em 21 Jun 2009 12:24

Jerry escreveu:Muito coerente sua postagem, André Felix, e em muitos momentos penso como você, especialmente no que se refere ao candomblé, religião que professo.


Quem pena professor Jerry!
Eu esperava uma bronca!
Tá ligado? Tipo aquele lance sadomasoquista ... :9

Brincadeira! :1

Um caminho possível seria adotar uma postura do tipo "anfíbia". Consciente da validade dos símbolos religiosos como um meio e não um fim em si mesmos, a pessoa poderia usá-los como recursos váildos para o despertar de uma consciência mais ampliada, sem deixar noentanto o lado materialista e cético de encarar a religiosidade e a realidade, sem deixar de reconhecer as limitações desses recusos, sem adotá-los como caminhos excludentes de outros e, acima de tudo, sem se deixar escravizar por eles.
O pensamento é o ensaio da ação.
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 21 Jun 2009 12:29

Jerry cita:
Onde se tentou abolir a religião, as pessoas encontraram outros meios para dar vazão à sua necessidade simbólica de definir o mundo. Vide o caso do marxismo, por exemplo. A idéia de paraíso foi substituída pela idéia do comunismo, onde Marx e Engels se tranformaram em profetas maiores - e um Lênin em profeta menor -, a burguesia demonizada, o proletariado apresentado como a classe salvadora, o Armagedom nada mais seria que a revolução proletária... São apenas algumas analogias, mais evidentes. Outras subjazem.

Exato Jerry...toda forma de ideologia que tem uma matiz excludente ou de tentar concentrar para si uma "verdade" ou superioridade acaba por se transformar naquilo que mais critica.
Muito bem lembrado o paraíso na Terra idealizado por Marx e aí podemos refletir e indagar da atual "religiosidade" e "sacralidade" dada a Ciência nos dias atuais. Existe por parte de pessoas como Dawkins um endeusamento da ciência e uma tentativa de dar um ar puro e quase "angelical". Percebam que não estou condenando ou desprezando a importância da ciência, mas sim criticando esse fetichismo atual.

Acho que tanto Jerry e Abenildo poderiam me tirar essa dúvida:
No candomblé existe realmente o transcendente? Na opinião de vocês existe as entidades (ou vida sobrenatural)? O transe é algo que vem da pessoa ou tem influência de fora por algo maior? Gostaria tanto da opinião particular de vocês e como essas perguntas são entendidas pelos praticantes em geral.

Aí coloco de novo essa citação de Dawkins e de todo um movimento neo ateu e de uma "ciência" que eles professam existir como o caminho a ser seguido e todo resto inclusive o candomblé ser algo a ser superado ou como ele gosta de falar: uma tolice. O que vocês acham disso mais especificamente?

As pessoas que partem da estupefação pessoal com um fenómeno natural direto para a invocação apressada do sobrenatural não são melhores que os tolos que vêem um ilusionista dobrando uma colher e assumem que se trata de um "paranormal".


São tolos os que crêm nos orixás? Que possuem o Ibá? Que consultam Babalaôs? Ter respeito ao Congá? Ter uma ritual de descarrego? Fazer um despacho? Ser uma Equede? Ser iniciado como filho de santo? Fazer um jogo de búzios? Usar um Quelê?

São tolos os que crêem nos santos? Ter objetos que ornamentem as imagens desses santos? Que consultem profetas? Ter respeito aos altares cristãos? Ter um ritual para benzer a pessoa? Fazer oferendas de flores aos seus santos? Ser um noviço? Ser iniciado como um servo de Deus? Usar um crucifixo ou fitinhas?
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 21 Jun 2009 12:41

André Félix comenta:
A humanidade já deveria estar suficientemente amadurecida para assimilar uma religiosidade conceitual, isenta de símbolos, rituais, sacríficios e tabus totalmente culturais, que revelam as subjetividades características de um povo, de uma época.

Com certeza André já está passando do tempo e corremos o risco da fruta estragar. Mas, a grande crítica atual movida por Dawkins é que não existem problemas econômicos, sociais somente a religião é que deturpa tudo no mundo e a Ciência é a nova luz e o racionalismo a salvação! Se pessoas esclarecidas como dizem ser os neo ateus preferem gastar absurdos com frases em ônibus para dizer que Deus não existe e se alguns cientistas que se dizem neo ateus são os que mais contribuem para a destruição acelerada do nosso planeta o que podemos esperar?

Será que vivemos numa época em que crentes fundamentalistas não fazem nada pelo bem do Planeta e da sociedade mundial esperando o Paraíso...e do outro lado temos os cientistas ateus ou neo ateus das indústrias que mais faturam (remédios, drogas ilegais, armas) fazendo do nosso planeta um inferno literal?
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor pascoalnaib em 21 Jun 2009 13:01

André Félix cita:
A pessoa precida sair do seu dia-a-dia, abstrair-se da realidade, aprender hebraíco, sânscrito ou palavras de algum dialeto africano, aprender danças e cantos, para entrar num processo de espiritualização? Precisa adotar uma postura de entreguismo submisso perante líderes, padres, pastores, pais-de-santo, livros sagrados e divindades míticas? Eu sempre vejo isso com desconfiança.

André os rituais ou métodos (o Rogério uma vez explicou para que serve a repetição de mantras de forma belíssima) e o juntar-se com outras pessoas tem toda uma questão sócio-espiritual e que não necessariamente fazer um ritual seja estar entregue a submissão omissa e desforme.
Tem umas pesquisas legais sobre isso e Aldous Huxley em seu livro "As Portas da Percepção / Céu e Inferno"
As portas da percepção/Céu e inferno
Aldous Leonard Huxley

Huxley elabora uma cartografia das áreas não-mapeadas da consciência humana.

Os dois ensaios são "relatos pacíficos de uma experiência extraordinária".

A obra. As portas da percepção e Céu e Inferno não tratam da revelação de um Céu ou de um Inferno de visões, mas sim da descoberta de uma tradição arcaica que a droga tornaria visível: a semelhança entre a mente do homem e a realidade substancial do cosmos. Nesses dois ensaios, que estão entre os mais profundos estudos já escritos acerca dos efeitos do uso das substâncias psicoativas, Aldous Huxley investiga as fronteiras remotas da mente e elabora uma cartografia das áreas não-mapeadas da consciência humana.

A história do livro. Aldous Huxley foi um dos primeiros escritores do século XX a estudar as "mudanças objetivas" provocadas pelo uso das drogas de excursão psíquica. Os resultados dessas investigações estão reunidos em As portas da percepção, de 1954, e Céu e Inferno, de 1956. Os títulos dos ensaios foram colhidos dos aforismos criados por William Blake, um poeta "maldito", que mimetizou suas alucinações tanto com palavras quanto em telas que representam personagens bíblicas em cenários apocalípticos. No primeiro ensaio, o autor descreve sua experiência com a mescalina, um alcalóide extraído do peiote, um cacto mexicano. Já no segundo ensaio, Huxley prossegue no exame das implicações mentais e éticas dessa experiência.
O que se diz. Para Manuel da Costa Pinto, jornalista, editor da revista Cult e autor do prefácio, "As portas da percepção e Céu e Inferno são relatos pacíficos de uma experiência extraordinária e sugerem um autor que não transfere para a escrita as fendas e as instabilidades de sua paisagem interior".
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Re: Religiões afro também precisam ser superadas?

Nova mensagempor Jerry em 21 Jun 2009 13:02

Pascoal escreveu:São tolos os que crêm nos orixás? Que possuem o Ibá? Que consultam Babalaôs? Ter respeito ao Congá? Ter uma ritual de descarrego? Fazer um despacho? Ser uma Equede? Ser iniciado como filho de santo? Fazer um jogo de búzios? Usar um Quelê?

São tolos os que crêem nos santos? Ter objetos que ornamentem as imagens desses santos? Que consultem profetas? Ter respeito aos altares cristãos? Ter um ritual para benzer a pessoa? Fazer oferendas de flores aos seus santos? Ser um noviço? Ser iniciado como um servo de Deus? Usar um crucifixo ou fitinhas?


Pascoal, permita-me responder-lhe com uma citação relativamente longa, do estudioso das religiões Mircea Eliade:

Mirce Eliade escreveu:Quando o sagrado se manifesta

O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano. A fim de indicarmos o ato da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo é cômodo, pois não implica nenhuma precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela. Poder-se-ia dizer que a história das religiões – desde as mais primitivas às mais elaboradas – é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania – por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, urna pedra ou uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo “de ordem diferente” – de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo “natural”, “profano”.

O homem ocidental moderno experimenta um certo mal estar diante de inúmeras formas de manifestações do sagrado: é difícil para ele aceitar que, para certos seres humanos, o sagrado possa manifestar-se em pedras ou árvores, por exemplo. Mas, como não tardaremos a ver, não se trata de uma veneração da pedra como pedra, de um culto da árvore como árvore. A pedra sagrada, a árvore sagrada não são adoradas com pedra ou como árvore, mas justamente porque são hierofanias, porque “revelam” algo que já não é nem pedra, nem árvore, mas o sagrado, o ganz andere.

Nunca será demais insistir no paradoxo que constitui toda hierofania, até a mais elementar. Manifestando o sagrado, um objeto qualquer torna-se outra coisa e, contudo, continua a ser ele mesmo, porque continua a participar do meio cósmico envolvente. Uma pedra sagrada nem por isso é menos uma pedra; aparentemente (para sermos mais exatos, de um ponto de vista profano) nada a distingue de todas as demais pedras. Para aqueles a cujos olhos uma pedra se revela sagrada, sua realidade imediata transmuda-se numa realidade sobrenatural. Em outras palavras, para aqueles que têm uma experiência religiosa, toda a Natureza é suscetível de revelar-se como sacralidade cósmica. O Cosmos, na sua totalidade, pode tornar-se uma hierofania.

O homem das sociedades arcaicas tem a tendência para viver o mais possível no sagrado ou muito perto dos objetos consagrados. Essa tendência é compreensível, pois para os “primitivos”, como para o homem de todas as sociedades pré-modernas, o sagrado equivale ao poder e, em última análise, à realidade por excelência. O sagrado está saturado de ser. Potência sagrada quer dizer ao mesmo tempo realidade, perenidade e eficácia. A oposição sagrado/profano traduz se muitas vezes como uma oposição entre real e irreal ou pseudo real. (Não se deve esperar encontrar nas línguas arcaicas essa terminologia dos filósofos – real-irreal etc. –, mas encontra-se a coisa.) É, portanto, fácil de compreender que o homem religioso deseje profundamente ser, participar da realidade, saturar-se de poder.

É deste assunto, sobretudo, que nos ocuparemos nas páginas a seguir: de que maneira o homem religioso se esforça por manter-se o máximo de tempo possível num universo sagrado e, conseqüentemente, como se apresenta sua experiência total da vida em relação à experiência do homem privado de sentimento religioso, do homem que vive, ou deseja viver, num mundo dessacralizado. É preciso dizer, desde já, que o mundo profano na sua totalidade, o Cosmos totalmente dessacralizado, é uma descoberta recente na história do espírito humano. Não é nossa tarefa mostrar mediante quais processos históricos, e em conseqüência de que modificações do comportamento espiritual, o homem moderno dessacralizou seu mundo e assumiu uma existência profana. Para o nosso propósito basta constatar que a dessacralização caracteriza a experiência total do homem não religioso das sociedades modernas, o qual, por essa razão, sente uma dificuldade cada vez maior em reencontrar as dimensões existenciais do homem religioso das sociedades arcaicas.


Fonte: ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 13 e 14.

Pascoal, conforme salientado por M. Eliade acima, em última instância, não haveria o transcendental para a mentalidade "primitiva", ou primeira, uma vez que a realidade não está descolada do sagrado. Essa cisão entre sagrado e profano, como dito, é uma invenção relativamente recente. Neste sentido, para nós, candomblecistas, que praticamos uma religião milenar, o transcendental está em toda a parte, e por isso mesmo em nenhum lugar em específico.

O ibá que você mencionou é a representação material do orixá, geralmente uma pedra ou ferro estilizado. É sobre ele que os sacrifícios são feitos, e diante dele que as oferendas são depositadas. Como dito por Eliade, a sacralidade da pedra ou do ferro existe em potência. A religião torna patente, traz à tona essa sacralidade que já existe, através dos ritos.

No que diz respeito ao transe, no tópico sobre o candomblé que abri já expliquei um pouco sobre isso. O orixá não vem de fora e entra em mim, mas já existe em potência em mim, em força, em axé, e ele transborda quando é chamado pelos atabaques, por exemplo.

Enfim, essa questão sagrado/profano não é um problema nosso, mas do homem ocidental moderno, que quer abandonar essa visão sacralizadora do mundo. Mas, como você mencionou, paradoxalmente ele elege um novo fetiche - a ciência.
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