Candomblé : Religiões, Crenças & Teologia
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Candomblé

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Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:33

O candomblé é a adaptação no Brasil das religiões praticadas pelos povos iorubás, de culto aos Orixás, dos jejes, de culto aos Voduns (não confundir com o vodu estereotipado por Hollywood) e dos bantos, de culto aos Inkices. No candomblé adoram-se Deuses, e não espíritos, no sentido de ancestrais, ou mortos. Tais Deuses personificam uma força da natureza (como Xangô e o fogo) ou uma atividade humana (como Ogum e a metalurgia, ou Oxóssi e a caça). O culto é feito numa língua africana (sim, na África há línguas, e não só dialetos), e o iniciado recebe um novo nome africano. Busca-se agradar às divindades, que vêm em terra abençoar seus fiéis através de danças (acho isso particularmente lindo). Isto ocorre através do transe.

Acredita-se que todo ser humano só está vivo porque compartilha do axé de algum Orixá (do iorubá Ori, cabeça, + xá, guardião). Assim, eu, Jerry, estou vivo porque gasto o axé, ou força vital, proveniente de meu Orixá, Oxóssi. Devo, pois, ser-lhe grato. Tal associação entre o indivíduo e seu Orixá manifesta-se mesmo na personalidade. Então, como Oxóssi, eu, que sou seu filho, sou calado, observador, rápido e esperto. Mas não apenas isto. Os Orixás também apresentam aspectos negativos, como os deuses gregos: um filho de Oxóssi tende a ser egoísta e áspero. Nisto para mim está a grande atração do candomblé: eu, como fiel, não devo buscar seguir os passos de alguém perfeito. Isto só gera frustração. No erro caracteristicamente humano também há muito de divino. Claro que isto não justifica que eu me resigne a não melhorar. Através dos mitos dos Orixás aprendo a evitar erros e a tentar melhorar enquanto pessoa.
Acho que para começo de conversa está bem.

Quero deixar claro que não estou fazendo proselitismo. Já fiz muito isto de porta em porta, e detestei. Estou apenas tentantado esclarecer quaisquer dúvidas. Além disto, não perdi meu senso crítico. Há coisas na minha religião que critico, e nem tudo ponho em prática. Mas o candomblé é, ainda, uma maneira interessante de ver o mundo e de nele existir. Ao menos por enquanto.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:34

Johannes escreveu:Jerry, você disse que o candomblé não se refere a espíritos, mas deuses, ou forças da natureza.

Pelo que eu entendo (talves seja uma distorção feita pelo kardecismo), os orixás são falanges de espiritos.

Todos teríamos uma espécie de espirito imortal (geralmente se pega a definição do kardecismo, embora eu não considero ser a mesma definição).

Quando morremos podemos nos apresentar em forma de um Orixá.

Isso está correto, ou é uma distorção causada com o sincretismo do kardecismo? Penso que o sincretismo com o kardecismo fez o candomblé perder sua identidade. O sincretismo com o kardecismo foi mais destruidor do que com o sincretismo com o cristianismo.

Ao meu ver, o conceito do candomblé seria que tais Orixás seriam forças da natureza, que possuem certas propriedades de personalidade e quando morremos nos integramos a essas forças. Enfim, no candomblé se trata com forças da natureza que se apresentam como personalidades, e não espíritos tipo o gasparzinho ou o penadinho (como prega o kardecismo).

A minha pergunta é:

Qual o conceito do candomblé afinal?

Somos ou temos um espírito que mantém a individualidade após a morte ou após a morte somos como uma gota de agua (axé) que cai num oceano (orixá)?



Johannes
Olha só, o que você falou sobre a influência do kardecismo está correto para a Umbanda, e não para o Candomblé.
A Umbanda é geralmente definida pelos antropólogos como a religião tipicamente brasileira. Ela é uma fusão de culto aos Orixás, Kardecismo, catolicismo popular e esoterismo europeu. É na Umbanda que há hoje sincretismo entre um santo católico e um Orixá (entre Santa Bárbara e Iansã, por exemplo).
Uma casa de Umbanda sempre vai diferir de outra. Numa a influência católica pode ser maior, noutra a kardecista, e assim por diante. Já no Candomblé o modelo de culto é padronizado, desde o Rio Grande do Sul até a Bahia.
Para nós, do Candomblé, os Orixás não são espíritos não. São Deuses. Em alguns mitos alguns deles, como Xangô, já tiveram uma existência humana, mas sublimaram isto e foram promovidos à condição de divindade. Não acreditamos que algum de nós, após a morte, manifeste-se na forma de Orixá.
Enfim, um conceito de candomblé? Uma religião africana no Brasil. Um conceito de umbanda? Sincretismo entre esta mesma religião africana, kardecismo, catolicismo popular e esoterismo.
Depois continuamos.
Abraço!
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:36

Johannes escreveu:Realmente eu conheço mais a umbanda, e não sei diferenciar as duas religiões muito bem. Embora eu saiba que são diferentes.

Mas oque acontece com nós após a morte, na visão do candomblé?

O axé é apenas uma força sustentadora da vida ou é a nossa mente (personalidade)?

Se for apenas uma força vital, oque seria a nossa mente (o "EU")?

Se o axé for a nossa mente, voltamos para o Orixá com nossa personalidade? Isso faria o Orixá ser um conjunto de personalidade não?

Enfim , oque é a mente (consciência, personalidade) para o candomblé? E oque acontece com o "Eu" após a morte?



Excelente pergunta!
Você deve ter percebido o significado da palavra Orixá: ori (cabeça) + xá (guardião). Assim, o Orixá é o guardião de nossa cabeça, ou personalidade. Há um ritual no candomblé que precede à iniciação: o bori (oferenda à cabeça). Neste ritual nossa cabeça, símbolo de nossa individualidade e personalidade, é reverenciada e é alimentada simbolicamente, com o oferecimento de comidas (frutas, grãos), e cânticos. Há um ditado que diz que "Se o ori (personalidade) não quer, o Orixá nada pode fazer".
Assim como Cristo disse "Vós também sois deuses" aos seus discípulos, no candomblé acredita-se que o ser humano, dotado de um ori, ou personalidade, também é uma divindade. Há o Ori Odara (personalidade bonita) e o Ori Buruku (personalidade ruim). Não podemos culpar os orixás se não temos uma boa personalidade.
Quando morremos, o axé retorna ao Orixá, e nossa personalidade parte para o Orun (o mundo espiritual, subdividido em nove partes). Acredita-se que podemos reencarnar, e para isto renovamos o pacto com os Deuses, solicitando-lhes seu axé, ou força vital, para retornarmos. Isto não precisa ser necessariamente com o mesmo orixá da vida anterior.
Em suma: o Orixá não é um conjunto de personalidades, mas a "central de energia" que alimenta de vida diversos oris, ou personalidades. Após a morte, há uma separação entre ori e o axé do Orixá. No Orum, nosso espírito, chamado de emi (sopro, vento), tem existência própria. Quando decidimos reencarnar, nos dirigimos a Ajalá, Orixá modelador de cabeças, escolhemos um novo ori, ou cabeça, ou personalidade, e com a força vital dos Orixás, retornamos ao Aiyé, ou mundo terrestre.
Abraço!
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:36

[quote="Johannes"]Pelo que entendi:

Nós = Ori + Axé

Isso aí?

Pelo que eu andei lendo os Orixás são manifestações de Olodumare. O cabeça dos Orixás.[quote]

Cada um de nós, cada eu = emi (espírito) + ori (local onde o emi vive, personalidade), alimentados pelo Orixá.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:38

Johannes escreveu:Eu encontrei um site muito bom que fala sobre o Candomblé:

http://translenza.com.br/orixa/index.php

Tem vários conceitos e lendas do Candomblé.

Muito bom mesmo!

Gostei também do fato de que no Candomblé, assim como no budismo, não existe o conceito da reencarnação.

Vida Eterna?

Por razão lógica, se viveremos fisicamente, neste plano terreno, apenas uma vez e nossa "vida" é eterna, este período que aqui passamos é muito curto, em se comparando com a eternidade, só isto já torna óbvio nos preocuparmos com a "outra" vida, mas o raciocínio conclusivo aparecerá mais adiante, destacado sob forma grifada, após algumas considerações necessárias.

Evidentemente para quem crê nesta "outra" vida.

Porque creio na outra vida e não na reencarnação?

Primeiro não li ou ouvi nada a respeito na filosofia Yorubana, o que me faz raciocinar, e raciocinando me leva a perceber que não temos nenhuma prova ou indicação de reencarnação, salvo exceções, que toda regra se submete, no caso em tela, os àbiku, assunto ainda sob-júdice em minha cabeça.

Existe uma teoria, anterior a ciência da genética atual, que as pessoas, locais ou situações que existem em nossa memória e que temos a certeza que nunca vimos ou passamos, acessadas mais comumentes em nossos sonhos, seriam de "encarnações" anteriores, mas que atualmente, estou mais propício a crer de se trata de uma herança genética, que herdamos dos nossos antepassados, assim como traços físicos, genes, etc.

seriam traços de memória anexados em nossos genes de memória, razão de "visualizarmos" rostos ou locais nunca vistos, pois a possibilidade de os criarmos de forma instantânea é zero.

Eu já gostava do Candomblé, agora com essa mais ainda.

Me admiro do Candomblé não ter sido infectado pelos conceitos desconexos do espiritismo.


Johannes,
Olha só, isto aí é um conceito aparentemente muito pessoal de um praticante do candomblé.
Segundo Pierre Verger, entre os iorubás na Nigéria e no Benin, acredita-se que a pessoa, após sua morte, pode renascer fisicamente, mas apenas naquela família de onde ele partiu. Assim, o retorno ao Aiê é condicionado à ancestralidade.
No candomblé praticado no Brasil, como já te disse anteriormente, não há muita preocupação com uma vida anterior ou posterior a esta. Celebra-se esta vida, embora se saiba que a morte não é necessariamente o fim.
Conceitos kardecistas são estranhos ao candomblé. A umbanda é que se deixou influenciar - e muito! - pelo espiritismo.

E olha, cuidado com informações em sites. Eu dei uma olhada neste que você indicou, e ele traz, de fato, muita coisa verídica. Mas outras são idiossincrasias do autor. Percepções muito particulares dele do candomblé.
O negócio mesmo de preencher um formulário para saber qual seu orixá pessoal. Isso não existe! Apenas o jogo de búzios, efetuado por um sacerdote (ou sacerdotisa) com mais de 7 anos de iniciado é que pode determinar o orixá de alguém. Esse negócio de dar orixá por signo, ou por formulário, como é o caso do site, me cheira a picaretagem.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:39

Digger escreveu:Olá Jerry! Li tudo até agora e aprendi muito sobre sua religião. Percebi que muita informação que eu tinha não era verdade.

Mas como Testemunha de Jeová, gostaria muito de te fazer algumas perguntas:

Então não é verdade que os membros de sua religião são "moletados" e "sofrem" nas mãos dos Demônios?

O que um "Demônio" é para uma Testemunha de Jeová, seria o q para um praticante do Candomblé?



Olá, Digger!

Olha só, o candomblé, conforme já expliquei, é a adaptação no Brasil do culto aos Orixás, praticado pelo povo iorubá para cá trazido no final do século XVIII e na primeira metade do século XIX.

Não apenas para os iorubás, mas para nenhum povo africano - e olha que são centenas - para nenhum povo africano existe a figura do Diabo, ou do Demônio, tal como representado pelos cristãos. E quem fala isso não sou eu, mas teóricos como Câmara Cascudo, Alberto da Costa e Silva ou Reginaldo Prandi, por exemplo.

O "demônio", para uma tj, é um dos anjos seguidores de Satanás. Como cristãos que são, as tj's dividem o mundo em duas partes opostas: a religião "verdadeira" e o resto, ou seja, todas as religiões tidas como "falsas". Nesse sentido, todas as religiões, para as tj's, estão sob o poder do iníquo. Com o candomblé não seria diferente. Como nesta religião ocorre o transe com forças da natureza, tidas como deuses, tais manifestações são atribuídas a possessões demoníacas.

Diferentemente do que ocorre com zoroastrianos, judeus, cristãos e muçulmanos, os praticantes do candomblé, assim como ocorria na religião grega antiga, não dividem o mundo em bem e mal absolutos e opostos. Não. Para nós, candomblecistas, e para várias outras religiões não cristãs, tudo é bom e mau ao mesmo tempo. Depende da relação que estabeleço com as coisas.

Vou te dar um exemplo. O rio, por exemplo, é bom ou mau? As duas coisas! Ele é bom porque me fornece água para beber e cozinhar, peixe para matar minha fome, posso utilizá-lo como transporte ou como fonte de energia elétrica. Beleza. Mas este mesmo rio pode inundar plantações e casas; pode matar alguém afogado. Neste sentido, ele é mau. Na verdade, é a relação que estabeleço com o rio que fará com que ele se mostre melhor ou pior. Oxum é a deusa dos rios para nós, candomblecistas. Ela é boa ou má? Ambas as coisas! Assim como o rio pode mostrar ser benéfico ou maléfico, Oxum, que é a sua personificação, pode ser benfazeja ou malfazeja para comigo. Eu é quem tenho de agradá-la para que ela mostre apenas seu lado benéfico, e aplaque seu lado irascível.

Se você prestar bastante atenção, o Jeová do Antigo Testamento não é bem absoluto. Às vezes ele se mostra mal, seja para com seu povo, seja para com outros povos. Se ele não fosse agradado corretamente, poderia irar-se e destruir as pessoas. Veja o caso dos filhos de Arão, que por causa de incensos trocados foram fulminados por Jeová!

Mas, voltando ao candomblé. Os orixás molestariam as pessoas? Não necessariamente. Acreditamos que alguns seres humanos são escolhidos para serem iniciados no culto de determinado orixá. Como saber quem foi escolhido? O transe é uma das maneiras. O orixá começa a manifestar-se no corpo de seu filho eleito. Geralmente o transe é precedido por tonteiras, náuseas, taquicardia, os sintomas diferem de pessoa para pessoa. Quando descobre que tem de iniciar-se, e se recusa, o orixá faz aquilo que Jeová fazia com os judeus que se recusavam a cultuá-lo: retiram o seu favor. Deixam de trazer bênçãos sobre ele. A pessoa pode, por exemplo, perder uma excelente chance de conseguir emprego. Quando a pessoa inicia-se no culto do orixá por quem foi escolhida, pelo contrário, começa a ser abençoada por ele. E se o abandona, o orixá também abandona seu filho, e o deixa por sua conta. Está então a pessoa amaldiçoada? Não! Mas também perde o apoio e a proteção de seu orixá, que o esquece, já que também foi esquecido. A lógica é essa.

Digger escreveu:O que me diz dos relatos de ex-membros de sua religião (e de outras religiões afro-brasileiras) que se tornaram Testemunhas de Jeová e foram "perturbadas" por "espíritos iníquos"?Obrigado!



Creio já ter respondido esta pergunta mais acima. Veja só, se a pessoa abandonou o seu orixá, também é abandonada por ele. Segundo a cosmovisão iorubá, o novo deus que a pessoa adotou deve ser competente o suficiente para proteger seu novo adepto. Os orixás apenas esquecem-se de quem deles se esqueceram. Mas a perspectiva cristã vai dizer que tudo o que der errado na vida de um ex-candomblecista é por conta do Diabo, já que identificam tudo o que não está de acordo com sua visão com um mal absoluto. O engraçado é que quando algo dá errado na vida de um cristão, diz-se que é provação. Mas quando ocorre na vida de um candomblecista, diz-se que é obra de demônios. Será que isso é justo?
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:48

Digger escreveu:Olá Jerry! Muito obrigado!

Entendi sim os seus argumentos e pode ter certeza que o meu respeito por sua religião aumentou muito.

Quanto a sua pergunta no final: É justo ou não? Com certeza não é justo usar "dois pesos e duas medidas".

Depois de tudo que já estudou em sua religião, existe lugar para um "Jeová, Deus"? Se sim, ele ainda seria Jeová para o Candomblé, ou seria uma adaptação de algum orixá para o Cristianismo/Judaismo?


Quem era Jeová, originalmente, ao ser adotado como um dos deuses tutelares dos judeus?

Antes de ser imposto como deus único dos hebreus, através do "Movimento Iavé Sozinho", Jeová dividia espaço com outros deuses. Não era necessariamente o maior deles.

É interessante perceber como ele se manifestava entre os hebreus:

1. Quando se apresentou a Moisés, com um arbusto em fogo que, no entanto, não se consumia (Êxodo 3:2);

2. Ao guiar seu povo para fora do Egito, com uma nuvem durante o dia, e uma coluna de fogo durante a noite (Êxodo 13:21);

3. A próxima referência faço questão de transcrever. Impedidos de subir o Monte Sinai e contemplar a glória de Jeová, o povo observou Moisés subir o monte. Que ocorre? O relato está em Êxodo 24 : 16-18:

16 E a glória de Jeová continuava a residir no monte Sinai e a nuvem continuava a cobri-lo por seis dias. Por fim, no sétimo dia, ele chamou a Moisés do meio da nuvem. 17 E, aos olhos dos filhos de Israel, o aspecto da glória de Jeová era como um fogo devorador no cume do monte. 18 Moisés penetrou então no meio da nuvem e foi subir ao monte. E Moisés continuou no monte quarenta dias e quarenta noites.


4. Quando desceu do Monte Sinai, qual era o aspecto de Moisés? Ora, segundo Êxodo 34:29-35, por ter estado presente diante de Jeová, de seu rosto saíam raios.

5. No decorrer do Antigo Testamento, ele é associado ainda com o trovão, como em 1Sa 2:10, 2Sa 22:14 ou o Salmo 18:13, abaixo transcrito:

13 E nos céus Jeová começou a trovejar,
E o próprio Altíssimo começou a emitir a sua voz,
Saraiva e brasas de fogo.


Bom, Digger, baseado no que transcrevi acima, especialmente nas partes por mim grifadas, podemos perceber que Jeová era uma divindade do fogo e do trovão. Originalmente, como já afirmei, não era tido como o deus supremo. Tal noção será introduzida posteriormente na história dos hebreus.

Desta maneira, o Jeová do Antigo Testamento estaria para nós, candomblecistas, como um equivalente cananeu ao nosso Xangô, divindade do fogo, do trovão e da justiça.

Bom, mas que dizer da noção posterior, de um deus supremo? Esta é também a perspectiva dos cristãos. Nós, os candomblecistas, somos tidos como politeístas, o que está correto. Isto não significa, porém, que não tenhamos uma noção de divindade suprema. Ela existe, sim, e nós a chamamos de Olorun (Senhor do Orun, ou plano superior) ou Olodumarê (de etimologia duvidosa, segundo Pierre Verger).

Da energia emanada por Olorun brota Exu, o princípio dinâmico, aquele que põe tudo em movimento, sem o qual seria impossível criar o universo. Ao criar a Terra, Olorun cria juntamente os orixás, que seriam a personificação das forças da natureza. Com a ajuda de Oxalá e Odudua, e sempre sem abrir mão do dinamismo de Exu, Olorun cria a humanidade. Após isso tudo, cansado, ele se retira e entrega o mundo a seus ministros, divindades menores que ele próprio, ou seja, os orixás. A cada um entrega um domínio: o fogo a Xangô, os ventos a Iansã, as águas doces a Oxum, as águas salgadas a Iemanjá, os animais a Oxóssi, a guerra e a metalurgia a Ogum, a morte a Nanã, e assim com os demais orixás, que são 16 os cultuados no Brasil, mas centenas entre os iorubás da Nigéria e do Benim.

Olorun torna-se aquilo que os antropólogos da religião chamam de deus ociosi, ou deus supremo que se dedica ao ócio depois do fastidioso trabalho da criação. Não é que ele não se importe com os humanos. Tanto se importa que deixou seus ministros como encarregados de cuidar das coisas por aqui. Mas ele é tão Oga-Ogo (Distinto e Maravilhoso) e Olowo (Venerável), que é impossível aos humanos se dirigirem diretamente a ele. Por isso recorremos aos orixás.

Assim sendo, a idéia que os cristãos fazem de um deus supremo não é estranha ao candomblé. Tanto não é estranho que os primeiros missionários cristãos a entrar em contato com o povo iorubá, na África, ao traduzirem a Bíblia para o seu idioma, mantiveram a palavra Olorun para se referir ao El hebraico, traduzido em português por Deus. A literatura produzida pela Torre de Vigia em iorubá também mantém "Olorun" para se referir a "Deus". Você pode conferir isso no próprio site da Torre de Vigia. Veja que interessante o que ela diz sobre "Quem é Deus?":

1. As pessoas adoram muitas coisas. Mas a Bíblia nos diz que há apenas um Deus VERDADEIRO. Ele criou tudo o que existe no céu e na Terra. Por ter-nos dado a vida, ele é o Único a quem devemos adorar. — 1 Coríntios 8:5, 6; Revelação (Apocalipse) 4:11.

2. Deus tem muitos títulos, mas apenas um nome. O nome é JEOVÁ. Na maioria das Bíblias, o nome de Deus foi retirado e substituído pelos títulos SENHOR ou DEUS. Mas quando se escreveu a Bíblia, o nome Jeová ocorria nela umas 7.000 vezes! — Êxodo 3:15; Salmo 83:18.


Fonte: http://www.watchtower.org/t/rq/index.ht ... cle_04.htm

Agora veja como está escrito, no mesmo site. No idioma iorubá o título é "Ta Ni Ọlọrun?"

1. Ọ̀pọ̀ nǹkan ni àwọn ènìyàn ń jọ́sìn. Ṣùgbọ́n, Bibeli sọ fún wa pé, Ọlọrun TÒÓTỌ́ kan ṣoṣo ni ó wà. Òun ni ó dá ohun gbogbo lókè ọ̀run àti lórí ilẹ̀ ayé. Nítorí pé òun ni ó fún wa ní ìwàláàyè, òun ni Ẹnì kan ṣoṣo tí a ní láti jọ́sìn.—1 Korinti 8:5, 6; Ìṣípayá 4:11.

2. Ọlọrun ní ọ̀pọ̀ orúkọ oyè, ṣùgbọ́n orúkọ kan ṣoṣo ni ó ní. JEHOFA ni orúkọ yẹn. Nínú ọ̀pọ̀ Bibeli, a ti yọ orúkọ Ọlọrun kúrò, a sì ti fi orúkọ oyè bíi OLUWA tàbí ỌLỌRUN rọ́pò rẹ̀. Ṣùgbọ́n nígbà tí a kọ Bibeli, orúkọ náà, Jehofa, fara hàn nínú rẹ̀ ní nǹkan bí ìgbà 7,000!—Eksodu 3:15; Orin Dafidi 83:18.


Fonte: http://www.watchtower.org/yr/rq/article_02.htm

Tal utilização pela Torre do nome de Olorun não é nova. Como já falei, missionários católicos e protestantes vêm fazendo isso há muito tempo, inclusive em suas bíblias. Entretanto, tal associação entre "Olorun" e "Jeová Deus" é uma forçação de barra sem tamanho. Um iorubá tem uma idéia de Olorun bem diferente da visão cristã.

Mas o desrespeito cultural não pára aí. Como eu já te expliquei, Exu não é o mal absoluto, mas o princípio dinâmico utilizado por Olorun para criar o universo. Sendo assim, Olorun e Exu são forças complementares, e companheiros. Mas a Torre de Vigia, como os cristãos em geral, associa Exu ao Diabo. Veja só como a Torre ensina quem é o Diabo, em seu site.

Lição 4
Quem é o Diabo?

Satanás, o Diabo — de onde veio ele? (1, 2)
Como Satanás desencaminha as pessoas? (3-7)
Por que você deve resistir ao Diabo? (7)

1. A palavra “diabo” refere-se a alguém que diz mentiras maldosas sobre outra pessoa. “Satanás” significa inimigo ou opositor. São termos aplicados ao principal inimigo de Deus. No começo, ele era um anjo perfeito no céu, junto a Deus. No entanto, mais tarde ficou muito convencido e quis para si a adoração que de direito é de Deus. — Mateus 4:8-10.


Fonte: http://www.watchtower.org/t/rq/index.ht ... cle_04.htm

Agora o mesmo texto em iorubá:

Ta Ni Eṣu?
Satani Eṣu—níbo ni ó ti wá? (1, 2)
Báwo ni Satani ṣe ń ṣi àwọn ènìyàn lọ́nà? (3-7)
Èé ṣe tí ó fi yẹ kí o kọjú ìjà sí Eṣu? (7)


1. Ọ̀rọ̀ náà “eṣu” túmọ̀ sí ẹnì kan tí ń sọ̀rọ̀ ẹlòmíràn ní búburú. “Satani” túmọ̀ sí ọ̀tá tàbí alátakò. Àwọn orúkọ wọ̀nyí ni a fi ń pe olórí ọ̀tá Ọlọrun. Ní ìbẹ̀rẹ̀, òún jẹ́ áńgẹ́lì pípé kan ní ọ̀run pẹ̀lú Ọlọrun. Bí ó ti wù kí ó rí, òun ro ara rẹ̀ ju bí ó ti yẹ lọ lẹ́yìn-ọ̀-rẹyìn, ó sì fẹ́ ìjọsìn tí ó tọ́ sí Ọlọrun.—Matteu 4:8-10.


Fonte: http://www.watchtower.org/yr/rq/article_04.htm

Tal "tradução", além de incorreta semanticamente, reproduz uma associação entre o diabo cristão e orixá Exu que não se sustenta. Exu é dinamismo, é movimento. Por isso mesmo Exu rege o sexo. Exu também é fogo, tanto da madeira que queima quanto da água ardente, ou cachaça. Bom: sexo lembra pecado, fogo lembrava inferno aos católicos e protestantes, e cachaça lembra vício. Então Exu é o Diabo, pensaram os primeiros missionários. Tal ignorância permaneceu entre as tj's.

Veja que contradição: para um iorubá, Olorun e Exu são companheiros inseparáveis. Aí vem o cristão e diz que Olorun é o bem supremo, e que Exu, o mal supremo, é seu arqui-rival! É mole? Uma religião exógena, estranha, vinda de fora, quer redefinir as crenças culturais de um povo!!!

Para um conceito mais correto de orixá Exu, veja o tópico que te indiquei antes, com o texto do professor Reginaldo Prandi:

http://www.forum.clickgratis.com.br/tjl ... -1680.html

Espero ter esclarecido mais do que confundido! :4
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:51

Digger escreveu:Entendi sim! E não é tão complicado não, é até lógico a colocação (levando-se em conta a tradição e a vivencia de um povo).

Os relatos em si mesmos e os fatos relacionados ao Candomblé não são "horríveis" como eu pensava. Mas o que me perturba são os Transes. A Bíblia fala que isso é errado. Mas veja, isso do meu ponto de vista Cristão, apenas.

Gostei muito de aprender um pouco mais sobre sua religião e vou sim ler mais no link que citou.

Obrigado!


Rogério escreveu:Interessante verificar que incorporações (não sei se o termo é correto, se não for me corrijam) por orixás é algo ultrapassa as religiões afro-brasileiras ou africanas.

No budismo tibetano, segundo o relato do senhor Harrier, que viveu 7 anos no Tibet antes dele ser tomado pela china, haviam monges que encorporavam budas iluminados. Este budas já seriam, segundo a visão do budismo tibetano parte do todo, ou do universo como preferirem. Estas entidades ou energias iluminadas personificadas, eram convocadas através de ritos epecíficos da religião Bon e eram consultadas para tomar as decisões relativas ao governo e situações difíceis...

Interessante verificar que Harrier presenciou várias vezes estes monges incorporados efetuarem um ritual, onde agarravam uma espada afiada e segurando-a pela lâmina a torciam a ponto de deixa-las parecendo uma broca. Estes rituais somente aconteciam durante uma incorporação.
Várias vezes ele mesmo tentou mas não conseguiu sequer começar a torcer a dita lâmina.
Os tibetanos guardavam estas espadas como um amuleto de boa sorte junto aos seus altares pessoais.

Lendo sobre as religiões afros, me fez lembrar de meu finado avô, chefe de terreira de umbanda desde muito novo. Ele era um homem sábio, calmo e muito divertido... Pena qu eu era estudante TJ na época e o via como um "associado do diabo".

Bem, o tempo passa e as folhas caem...


Um bom número de candomblecistas, Rogério, incluindo aí eu mesmo, não utilizam o termo "incorporação" porque dá a idéia de que um espírito vindo de fora se apodera do seu corpo.

Na verdade, o conceito é que estamos vivos graças ao axé, ou energia vital, fornecido pelo nosso orixá individual. É interessante porque em festas de candomblé é comum as pessoas se perguntarem: oxente, Oxóssi não é um só? Como é possível então ver várias pessoas em transe com Oxóssi?

Não se trata necessariamente de onipresença. A questão é que Oxóssi é o irradiador de axé para milhões de pessoas. Durante uma festa em sua homenagem, todos os iniciados para o orixá caçador entram em sintonia com ele. Potencialmente, todos os filhos de Oxóssi trazem seu axé dentro de si - caso contrário não estariam vivos. Mas numa festa de Oxóssi, é como se ele, como uma central de energia, ativasse todos os seus filhos. Ou, noutro exemplo, como uma estação de rádio que pode ser ouvida por centenas de milhares de aparelhos de rádio.

Em outras palavras: Oxóssi e os demais orixás, para o candomblé, não é um espírito que vem de fora e se apodera de nosso corpo. É uma energia que já existe dentro de nós, e que transborda quando entramos em sintonia com o orixá individual.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:52

Atanael escreveu:Jerry, enquanto estive morando aí em Salvador, uma colega do trabalho fez iniciação no candomblé.
Não conversei mais com ela. Mas outros colegas do trabalho me informaram que ela foi para o lado "mau" do candomblé. Isso existe?
Fale sobre incorporações de indios e caboclos também. Isso é referente a macumba?


Atanael,

Como eu já expliquei anteriormente, o candomblé não é uma religião maniqueísta, que divide o mundo em dois lados opostos, o bem e o mal. Isso não existe.

Na umbanda, que é uma religião que sofreu sincretismo com o catolicismo, existe essa noção. Que fique claro, porém, que é uma religião completamente diferente do candomblé.

A umbanda, como o cristianismo que lhe influenciou e moldou, vê o mundo dividido em bem e mal. Assim, há espíritos da "linha da direita", representando o bem, como caboclos (espírito de indígena), pretos velhos (espírito de um escravo africano que viveu no Brasil), etc. Tais entidades vêm para aconselhar seus fiéis a fazerem o bem. Não é raro que um caboclo ou um preto velho faça orações católicas, no que é seguido por todos. E há a "linha da esquerda", representando o mal, com espíritos como pombas-giras (alguém que viveu aqui como prostituta), Zé Pilintra (uma espécie de malandro), etc. Estes espíristos são popularmente chamados de "exus". Mas lembre-se: exu na umbanda, como no cristianismo, é um espírito maligno, o mal absoluto, o próprio Diabo.

A linha esquerda de umbanda recebe o nome de quimbanda. É aí que se pratica a feitiçaria, com o intuito de prejudicar alguém, por exemplo.

O candomblé é totalmente diferente, ressalto mais uma vez. A feitiçaria é condenada. E, além disso, não se cultuam caboclos, pretos velhos, pombas-giras ou "exus" que não sejam orixás. E orixás são divindades, e não espíritos de pessoas que viveram aqui.

Pelo que você me falou, é provável que sua amiga tenha se iniciado na umbanda, ou no seu lado esquerdo, a quimbanda. Não posso ter certeza. Mas lado "mau" no candomblé te garanto que não existe, pelo simples fato de que, na nossa cosmovisão, tudo é bom e mau ao mesmo tempo.

Para uma melhor explanação sobre a umbanda e a quimbanda, religiões de fato brasileiras, bem como do candomblé, religião africana praticada no Brasil, consulte no site do Prof. Dr. Reginaldo Prandi, o texto A dança dos caboclos: uma síntese do Brasil segundo os terreiros afro-brasileiros, disponível no seguinte endereço:

http://www.fflch.usp.br/sociologia/prandi/dancacab.htm

Depois de ler este, sugiro que vá no endereço abaixo, no final da página, e consulte outros textos do autor:

http://www.fflch.usp.br/sociologia/prandi/

Vá até o final da página, onde estão disponíveis vários textos do autor.

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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:53

Diego Rutherford escreveu:Jerry, até aonde eu sabia, devido a uma "invasão" de caboclos em terreiros de candomblé no Brasil numa época passada, a maioria dos terreiros de candomblé abriu uma excessão para tocar gira de cabloclo, geralmente no inicio dos trabalhos de toque. Será que isso só ocorreu no Rio de Janeiro ? Essa história eu vi no livro "Mãe de Santo" da editora da Igreja Pentecostal de Nova Vida. Os terreiros que eu conheci aqui no Rio, todos tocam pra Caboclo, se bem que aqui tem muita mistura, que aqui é chamada de "Nação". Quando um terreiro de Nação toca pra "Preto Velho" também, é conhecido como "Almas e Angola"...


Diego,

A única exceção que alguns terreiros de candomblé de nação ketu de Salvador abrem é para os caboclos. Ainda assim, nunca se toca para caboclos e orixás no mesmo dia, porque é consenso que caboclos são espíritos de indígenas que viveram no Brasil, e orixás divindades iorubanas.

A lógica é a seguinte: quando os orixás chegaram aqui no Brasil, no final do século XVIII, já existiam os antepassados da terra, ou seja, os indígenas. Assim, é feita exceção apenas para os caboclos, em festas próprias.

Entretanto, a casa da qual descendo, o Ilê Axé Opô Afonjá, nunca toca para caboclos, pois tem o discurso do purismo iorubano. Ainda assim, filhos desta casa cultuam seus caboclos em suas residências, já que não podem cultuá-los no purista Ilê Axé Opô Afonjá.

O meu babalorixá, Prof. Dr. Julio Braga, cujo nome iniciático é Oyá Tundê (Iansã Voltou), apenas uma vez por ano, no dia 02 de Julho, toca para caboclos. Mas é uma festa bem menor se comparada com as festas dos orixás da casa, Iansã, em março, e Obaluaiyê, em setembro. A festa de caboclo é algo menor. Meu pai acredita que o culto aos orixás deve fazer essa honra aos donos da terra brasileira, os caboclos. Mas eu, por exemplo, não entro em transe com caboclos, nem muitos de meus irmãos.

Já para as outras entidades de umbanda, sejam elas de direita ou de esquerda, candomblés nunca tocam. Pelo menos os de nação.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 12:55

Diego Rutherford escreveu:Como já disse aqui, na minha pré adolescencia (11 a 14 anos de idade)estive muito envolvido com uma casa de Umbanda, que se tornou Nação, e depois Candomblé puro... fiquei na época muito chateado porque a entidade com quem eu mais gostava de trabalhar era o meu preto-velho "Pai Congo"... e o terreiro nesta transição de linha, parou de tocar pra preto-velho, mas continuou com Caboclo... a única vantagem foi que parou de cantar música pra Exu em português exaltando abertamente ao Diabo...
Imagem


Se esta casa se tornou mesmo candomblé de nação, Diego, ela não apenas parou de cantar para Exu como se fosse o Diabo, na língua portuguesa.

Se esta casa tornou-se mesmo candomblé de nação, corrigiu seu conceito distorcido pelo cristianismo de orixá Exu, e passou a cultuá-lo como Olonan, senhor dos caminhos e das múltiplas possibilidades. Não cantará, em iorubá, ewê-fon ou banto, para o diabo cristão, elemento estranho, mas para o senhor do dinamismo!

Com respeito à imagem que você postou, Diego, que fique bem claro que trata-se de um "exu catiço". Não tem nada a ver com orixá Exu. É a forma como a umbanda e a quimbanda, religiões que têm sincretismo com o cristianismo, representam Exu, ou seja, à semelhança do Diabo judaico-cristão.

O Exu do candomblé e dos iorubás é bem diferente. Vejam abaixo:

Imagem

Iniciada para Exu, em transe com o orixá, e com suas roupas. O bastão representa seu falo, as cabaças seus testículos; enfim, seu poder de procriação. Os búzios eram moedas entre os iorubás, representando sua infinita riqueza. Vejam que é uma mulher em transe com orixá Exu. Não tem nada a ver com a pomba-gira da umbanda e da quimbanda.

Imagem

Aqui temos um baixo-relevo feito pelo artista plástico Carybé. Vejam mais uma vez que nada tem de Satanás.

Imagem

Aqui uma aquarela do mesmo artista, Carybé. Exu, o orixá das possibilidades.

Então, pessoal, que fique claro. A imagem do exu postada pelo Diego é estranha ao candomblé. É uma influência cristã na umbanda, religião sincrética. O nosso Exu é africano, legítimo, e, portanto, nada tem de Satanás.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 13:03

Abenildo G. Florêncio escreveu:Meu querido Jerry.
Tenho muita curiosidade em sua rica cultura e religão com total respeito.
Tive a honra de ser convidado para uma inauguração de um terreiro, porém acho que era de Umbanda vistoque no início eles fizeram um "despacho" com uma garrafa de cachaça e cantavam " Xô, xô, xô que tá na hora. Xô, xô, xô que os exus já vão embora". Diziam-se os Tambolocôs, vc conhece ?
Como não era ciente destas diferenças, entrei na festa e gostei muito, no final queria saber qual era meu Orixá, mas me disseram que em outro dia com a módica quantia de 100 r$, poderia ser jogado os búzios. Não que ache que não se deva cobrar por um serviço prestado, só que achei que o enfoque à grana tava demais, achei meio charlatanice.
Se o amigo puder me dar uma força, por favor queira me indicar uma casa idônea por aqui em Pernambuco? Recife, ou até melhor, Caruaru ?


Olha, Abenildo, só o fato de cantarem em português já mostra que essa casa não era candomblé, e sim umbanda, ou o seu correlato em Pernambuco, os chamados "catimbós".

No candomblé primeiro canta-se para Exu, mas em iorubá. Tem-se de louvá-lo em primeiro lugar porque ele é o mensageiro, e sem ele, os outros orixás não são comunicados da festa, e não se farão presentes. A lógica é essa.

Com respeito a pagar para se consultar os búzios, isso é prática comum nos candomblés. Qualquer religião que seja precisa de dinheiro para a manutenção do templo. Não há dízimos. Contribuições voluntárias, à moda da Torre, também não ocorrem.

O dinheiro provém, sobretudo, dos chamados "clientes". Quem são eles? Pessoas que não têm vínculo com a casa de candomblé, que não são iniciadas, mas que precisam consultar o oráculo dos búzios.

Agora, o valor tá salgado, viu? Em Salvador a média do valor de um jogo de búzios é R$ 50,00.

Em Recife o culto aos orixás iorubanos é conhecido como "Xangô". Xangô aí é tanto o orixá do fogo e da justiça quanto o culto realizado aos orixás. O templo de culto a orixá, ou terreiro, mais antigo daí é o Obá Ogunté, popularmente conhecido como "Sítio de Pai Adão", fundado por volta de 1875.

Vou consultar meus alfarrábios e, assim que obtiver a informação, te envio via mensagem privada algum contato de um terreiro sério, idôneo, aí em Pernambuco.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 13:04

A quem interessar possa, está disponível na internet um texto do etnógrafo francês Pierre Verger sobre Olorun. O título é "O Deus Supremo Iorubá: Uma Revisão das Fontes". Neste texto, Verger faz considerações mas profundas sobre o caráter de Olorun, e as interferências de cristãos e muçulmanos na concepção de tal divindade suprema numa cultura politeísta.

O endereço do artigo é o seguinte:

http://www.casadasafricas.org.br/site/i ... 638715.pdf

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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 13:04

chamusca escreveu:Jerry, achei interessante sua citação; no livro O Pêndulo de Foucault, Umberto Eco identifica Exu com Hermes e faz alusão ao que vc disse, sobre a função de mensageiro; vc sabe tanto quanto eu que hermenêutica provém de Hermes o mensageiro dos deuses, e dentro da mitologia afro é ele quem assume esta função; inclusive, no livro, Eco diz que o identificou pelo seu símbolo que seria semelhante ao de Hermes.


Sim, Chamusca, Exu corresponde a Hermes, o mensageiro dos gregos antigos. Essa é a aproximação mais correta para Exu.

Assim como Hermes tem o dom da adivinhação e da interpretação da vontade dos deuses, é Exu quem rege o merindilogum, ou seja, o jogo de búzios, oráculo através do qual os homens consultam as divindades iorubanas.
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Re: Candomblé

Nova mensagempor Jerry em 19 Nov 2008 13:10

JU escreveu:Oi Jerry sei que as vesez temos nossas desavenças, más hoje estou em paz.



Paz seja contigo também, Ju!

[quote+"JU"]
Me responda o seguinte, porque vc não explica os termos que normalmente se atribui a religiões africanas estabelecidas no Brasil, do tipo que só denigre a imagem da religião.[/quote]

Ju, alguns desses termos já foram explicados em outros tópicos. Eu até abri um sobre influências de línguas africanas no português falado no Brasil. Mas não custa nada reexplicar aqui mesmo. A base será a pesquisa da lingüista africanista Yeda Pessoa de Castro.

JU escreveu:nomes: macumba, urucubaca, catimbó, zé pilintra, tranca rua,


MACUMBA: De origem banto, é a denominação genérica para as manifestações religiosas afro-brasileiras de base congo-angola, que incorporam orientações ameríndias, católicas e espíritas, com predominância do culto a caboclos e pretos-velhos. Prevalece no Rio de Janeiro, especialmente nas zonas rurais. A palavra vem dos idiomas bantos kikongo e kimbundo, makuba, significando originalmente reza, invocação. O uso em língua portuguesa, entretanto, acabou assumindo um tom pejorativo para designar feitiçaria, e não é bem aceito por candomblecistas.

URUCUBACA: Novamente uma palavra banto, do kikongo lukubuka. Significa simplesmente má sorte, azar. Diz-se de quando uma pessoa acha que tudo está dando errado para ela.

CATIMBÓ: Mais uma vez, palavra banto, corruptela de "timbau", do kikongo tibau. Nome dado a uma espécie de atabaque. Designa também o sincretismo entre práticas africanas, católicas e espíritas no interior do Nordeste, especialmente em Pernambuco. Seria a umbanda nordestina.

ZÉ PILINTRA: entidade cultuada na umbanda, da linha da "esquerda", ou seja, segundo a influência cristã, seria um espírito que trabalha também para o mal. Veja, Ju, que falamos de entidade de uma religião, a umbanda, que é sincrética.

TRANCA-RUA: Nome comum a outra entidade da linha de "esquerda" da umbanda, ou seja, da quimbanda. Apresenta-se como "exu", mas na verdade é o espírito de um morto que se passa por tal. Nada tem a ver com orixá Exu.

Agora, tem algo de comum em todas as palavras que você citou. Nenhuma tem qualquer ligação com o candomblé. São todas palavras voltadas para a umbanda e a quimbanda, religiões sincretizadas com o cristianismo. Perceba também que a maioria dessas palavras é de origem banto, e quem trouxe o culto aos orixás para o Brasil foram os iorubás, povo de cultura e língua totalmente diferentes.

JU escreveu:... outra coisa, porque o uso de galinha preta, nos rituais, a comida é pra quem?


No candomblé, Ju, assim como no judaísmo pré-cristão ou na religião grega antiga, o sacrifício de animais para a divindade é algo que faz parte do cotidiano religioso. Assim como o cheiro do sacrifício acalmava a Jeová, segundo o Antigo Testamento, os orixás também aceitam as primícias de seus súditos como sacrifícios. Eu só não entendo essa obsessão com a cor preta que o senso comum insiste em imputar ao candomblé.

Cada orixá tem sua própria simbologia, o que implica numa cor preferida. Assim, os animais oferecidos a Oxalá devem ser brancos; para Oxum, amarelados; para Xangô, avermelhados; para Exu, pretos ou avermelhados. Se reparar direito, nem todas as galinhas, galos, patos, carneiros, bodes, etc., sacrificados são pretos. Seria uma ofensa oferecer um animal dessa cor para Oxaguian ou Iemanjá, por exemplo.

Mas é interessante observar como a cor preta assusta as pessoas.

JU escreveu:já que fica no vasinho, porque na encruzilhada se coloca tais objetos?


A encruzilhada é o encontro de vários caminhos, de várias possibilidades. Assim, Exu, sendo o Olonan ("Senhor dos Caminhos"), é cultuado no encontro dos caminhos. Mas o que eu ofereço para Oxóssi deve ser depositado numa mata, para Ogum numa estrada de ferro, para Oxum num rio, para Iemanjá no mar, para Xangô na pedreira, e assim sucessivamente. A encruzilhada é apenas mais um dos lugares onde os orixás recebem seus presentes, mas sob hipótese alguma o único.

JU escreveu:porque o uso de vela preta, vermelha?


Essa parte já foi explicada. É a lógica das cores simbólicas. Mas, via de regra, o candomblé opta por velas brancas. A umbanda e a quimbanda é que fazem questão de acender uma vela segundo a cor de cada orixá (lembrando que para tais os orixás podem corresponder a santos católicos). Nós, candomblecistas, na maior parte das vezes usamos velas brancas, independentemente de qual seja o orixá homenageado.

JU escreveu:nos buzios porque se faz advinhação? não duvido da capacidade da entidade, é assim mesmo se consulta uma entidade?


No candomblé de nação, quando os orixás se manifestam através do transe numa festa, nem sempre conversam. Sua maneira de abençoar é através da dramatização dos mitos por meio da dança. Às vezes podem até falar algo, mas é raríssimo. Já na umbanda, eles vêm e até palestra dão! Lembro mais uma vez, entretanto, que na umbanda o que se manifesta são espíritos de mortos que dizem trabalhar na linha de determinado orixá. Nunca o orixá.

Mas eu posso precisar consultar o sagrado sobre questões importantes de minha vida num momento em que não há festa. Por isso há o oráculo dos búzios. Só quem está autorizado a manipulá-lo é um sacerdote ou sacerdotiza com no mínimo 7 anos de iniciado. Eu, por exemplo, só tenho 6, então ainda não posso jogar os búzios ainda. Infelizmente, de olho no dinheiro dos incautos, há muitos charlatães por aí, que nem iniciados são, e fingem saber jogar os búzios, cobrando caríssimo por isso.

Diferentemente do que as pessoas pensam, não existe transe na hora de consulta aos búzios. Totalmente consciente, o sacerdote diz para a pessoa fazer sua pergunta. Profere então as orações em iorubá, sacode-os e os lança sobre a mesa. São dezesseis búzios, um para cada orixá cultuado no Brasil. Eles têm uma fenda natural de um lado, representando o "sim", e uma abertura feita por humanos do lado côncavo, representando o "não". Há 256 possibilidades diferentes de combinações. Para cada combinação, um mito correspondente. Assim, se você consulta os búzios e quer saber se vai conseguir um emprego, e após lançados os búzios temos a combinação 147, por exemplo, o sacerdote deverá se esforçar para lembrar desse mito específico e, a partir dele, proferir sua sorte. Depois disso, lançará mais três vezes os búzios para confirmar se a interpretação está correta. Enfim, é um sistema complexo. E na Nigéria é mais complexo ainda, porque lá são mais de dois mil mitos e combinações diferentes!

O oráculo dos búzios foi ensinado aos homens pelo orixá Orunmilá, o adivinho. Mas, como nada se faz sem o dinamismo de Exu, é ele quem "fala" na hora da revelação dos búzios. Daí percebemos mais uma vez a importância central de tal orixá no culto.

JU escreveu:são só dúvidas que alguns aqui deve ter tambem e gostariam de perguntar.

Abraços


Espero ter tirado suas dúvidas, Ju. Se algo não ficou claro, é só perguntar novamente.

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