Lavoura Arcaica - "traz o demonio do corpo" : Livros e Filmes
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Lavoura Arcaica - "traz o demonio do corpo"

Indicação de livros e filmes que expõem de alguma forma a verdade sobre as Testemunhas de Jeová.

Lavoura Arcaica - "traz o demonio do corpo"

Nova mensagempor Little Rooster em 13 Jul 2012 19:25

Gente, esse é um trecho de Lavoura Arcaica, praticamente o único livro Raduan Nassar... que gerou o único filme de Luiz Fernando Carvalho. Encontrei filme e livro bem na época da minha desassociação, quando a ruptura com meus laços familiares foram dolorosos e me identifiquei bastante com esse trecho, logo do começo do livro. André abandonou a fazenda da familia e agora está recebendo seu irmão Pedro, que tenta o convencer de voltar pra família, já que todos sentem muito a sua partida. André oferece um segundo copo de vinho a Pedro que...


- "eu não bebo mais" ele disse grave, resoluto, estranhamente mudado, "e nem você deve beber mais, não vem deste vinho a sabedoria das lições do pai" ele disse com um súbito traço de cólera no cenho, desistindo na certa de quebrar com seu afeto o meu silêncio, e deixando claro que eu passaria dali pra frente por uma áspera descompostura, "não é o espírito deste vinho que vai reparar tanto estrago em nossa casa" ele continuou cortante, "guarde esta garrafa, previna-se contra o deboche, estamos falando da família" ele ainda disse impiedoso, francamente hostil, me fazendo sentir de repente que me escapava da corrente o cão sempre estirado na sombra sonolenta dos beirais, e me fazendo sentir que a contenção e a sobriedade mereciam ali o meu escárnio mais sarcástico, e me fazendo sentir, num clarão de luz, que era uma dádiva generosa e abundante eu poder me desabar do teto, foi tudo isso e muito mais o que senti com a tremedeira que me sacudia inteiro num caudaloso espasmo "não faz mal a gente beber" eu berrei transfigurado, essa transfiguração que há muito devia ter-se dado em casa "eu sou um epilético" fui explodindo, convulsionado mais do que nunca pelo fluxo violento que me corria o sangue "um epilético" eu berrava e soluçava dentro de mim, sabendo que atirava numa suprema aventura ao chão, descarnando as palmas, o jarro da minha velha identidade elaborado com o barro das minhas próprias mãos, e lançando nesse chão de cacos, caído de boca num acesso louco eu fui gritando "você tem um irmão epilético, fique sabendo, volte agora pra casa e faça essa revelação, volte agora e você verá que as portas e janelas lá de casa hão de bater com essa ventania ao se fecharem e que vocês, homens da família, carregando a pesada caixa de ferramentas do pai, circundarão por fora a casa encapuzados, martelando e pregando com violência as tábuas em cruz contra as folhas das janelas, e que nossas irmãs de temperamento mediterrâneo e vestidas de negro hão de correr esvoaçantes pela casa em luto e será um coro de uivos soluços e suspiros nessa dança familiar trancafiada e uma revoada de lenços pra cobrir os rostos e chorando e exaustas elas hão de amontoar-se num só canto e você grite cada vez mais alto "nosso irmão é um epilético, um convulso, um possesso" e conte também que escolhi um quarto de pensão prôs meus acessos e diga sempre "nós convivemos com ele e não sabíamos, sequer suspeitamos alguma vez" e vocês podem gritar num tempo só ele nos enganou" "ele nos enganou" e gritem quanto quiserem, fartem-se nessa redescoberta, ainda que vocês não dêem conta da trama canhota que me enredou, e você pode como irmão mais velho lamentar num grito de desespero "é triste que ele tenha o nosso sangue" grite, grite sempre "uma peste maldita tomou conta dele" e grite ainda "que desgraça se abateu sobre a nossa casa" e pergunte em furor mas como quem puxa um terço "o que faz dele um diferente?" e você ouvirá, comprimido assim num canto, o coro sombrio e rouco que essa massa amorfa te fará "traz o demônio no corpo" e vá em frente e vá dizendo "ele tem os olhos tenebrosos" e você há de ouvir "traz o demônio no corpo" e continue engrolando as pedras desse bueiro e diga num assombro de susto e pavor "que crime hediondo ele cometeu!" "traz o demônio no corpo" e diga ainda "ele enxovalhou a família, nos condenou às chamas do vexame" e você ouvirá sempre o mesmo som cavernoso e oco "traz o demônio no corpo", "traz o demônio no corpo" e em clamor, e como quem blasfema, levantem os braços, ergam numa só voz aos céus - Ele nos abandonou, Ele nos abandonou" e depois, cansado de tanta lamúria, de tanto pranto e ranger de dentes, e ostentando os pêlos do peito e os pêlos dos braços vá depois disso direto ao roupeiro, corra ligeiro suas portas e procure os velhos lençóis de linho ali guardados com tanta aplicação, e fique atento, fique atento, você verá então que esses lençóis até eles, como tudo em nossa casa, até esses panos tão bem lavados, alvos e dobrados, tudo, Pedro tudo em nossa casa e morbidamente impregnado da palavra do pai; era ele, Pedro, era o pai que dizia sempre é preciso começar pela verdade e terminar do mesmo modo, era ele sempre dizendo coisas assim, eram pesados aqueles sermões de família, mas era assim que ele os começava sempre, era essa a sua palavra angular, era essa a pedra em que tropeçávamos quando crianças essa a pedra que nos desolava a cada instante, vinham daí as nossas surras e as nossas marcas no corpo, veja, Pedro, veja nos meus braços, mas era ele também, era ele que dizia provavelmente sem saber o que estava dizendo e sem saber com certeza o uso que um de nós poderia fazer um dia, era ele descuidado num desvio, olha o vigor da árvore que cresce isolada e a sombra que ela dá ao rebanho, os cochos, os longos cochos que se erguem solados na imensidão dos pastos, tão lisos por tantas línguas, al onde o gado vem buscar o sal que se ministra com o fim de purificar-lhe a carne e a pele, era ele sempre dizendo coisas assim na sua sintaxe própria, dura e enrijecida pelo sol e pela chuva, era esse lavrador fibroso catando da terra a pedra amorfa que ele não sabia tão modelável nas mãos de cada um; era assim, Pedro, tinha corredores confusos a nossa casa, mas era assim que ele queria as coisas, ferir as mãos da família com pedras rústicas, raspar nosso sangue como se raspa uma rocha de calcário, mas alguma vez te ocorreu?
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