O Sagrado diante da morte
“... o que é visto do homem, o que dele se conhece, o que é pesado, medido, diagnosticado... não é tudo”.(1)
Pensar ou vivenciar a morte nos remete automaticamente a um apego espiritual, o que independe, ou às vezes se mescla com religiosidade. A espiritualidade é algo intrínseco, enquanto a religiosidade é conseqüência de nossa vivência.
Diante da morte “o ser humano ...fica animado de um desejo de ir ao extremo de si próprio, um desejo de plena realização” (1) e vemos aí as mais variadas manifestações de espiritualidade, conscientes ou inconscientes, tímidas ou intensas, tranqüilas ou desesperadas.
Nessa hora podemos nos perguntar: - O que é o Sagrado? Mas não teremos resposta, pois “o Sagrado não tem estrutura; falar da “estrutura do Sagrado seria como falar da quadratura do círculo” (2)
Não tendo esta resposta, muitos se apegam às religiões para fortalecer sua busca, conseguir explicações, ter algo palpável para servir de apoio e ser “a luz no fim do túnel”. A fraqueza humana em acreditar no sublime acaba por necessitar de apoios simbólicos.
Se, diante da morte, no entanto, nos perguntarmos: - O que realmente é o Sagrado? Qual a sua força intrínseca?, poderemos, talvez, entender que “o Sagrado é a experiência do divino que fazemos neste mundo... Não temos condições de apanhá-lo e todavia sentimos que somos apanhados, somos incapazes de exprimi-lo e no entanto lhe sentimos a força intrínseca e o valor, não podemos reconhecê-lo definitivamente e apesar disso aceitamos os seus sinais e suas manifestações”.(2)
Por isso, na hora da nossa ou da morte de um de nossos estaremos diante do Sagrado, impotentes pela nossa dor ou sofrimento. Mas é desse confronto, com aceitação ou revolta, que deixaremos brotar nossa espiritualidade, reconhecendo que “uma atitude espiritual é uma atitude de confiança na profundidade do homem, o que no homem supera o homem; o que no homem permanece aberto a um além do homem”(1)
(1) Marie de Hennezel – A arte de morrer
(2) Aldo Natale Terrin – Antropologia e horizontes do Sagrado


