O SAGRADO DIANTE DA MORTE

Filosofia, Sociologia, Antropologia, Psicologia...Como as Ciências Humanas podem ajudar a compreender o comportamento do ser humano frente ao transcendente, ao sagrado?

O SAGRADO DIANTE DA MORTE

Nova mensagempor Elza Marossi em 28 Jul 2010 20:27

O Sagrado diante da morte

“... o que é visto do homem, o que dele se conhece, o que é pesado, medido, diagnosticado... não é tudo”.(1)


Pensar ou vivenciar a morte nos remete automaticamente a um apego espiritual, o que independe, ou às vezes se mescla com religiosidade. A espiritualidade é algo intrínseco, enquanto a religiosidade é conseqüência de nossa vivência.

Diante da morte “o ser humano ...fica animado de um desejo de ir ao extremo de si próprio, um desejo de plena realização” (1) e vemos aí as mais variadas manifestações de espiritualidade, conscientes ou inconscientes, tímidas ou intensas, tranqüilas ou desesperadas.

Nessa hora podemos nos perguntar: - O que é o Sagrado? Mas não teremos resposta, pois “o Sagrado não tem estrutura; falar da “estrutura do Sagrado seria como falar da quadratura do círculo” (2)

Não tendo esta resposta, muitos se apegam às religiões para fortalecer sua busca, conseguir explicações, ter algo palpável para servir de apoio e ser “a luz no fim do túnel”. A fraqueza humana em acreditar no sublime acaba por necessitar de apoios simbólicos.

Se, diante da morte, no entanto, nos perguntarmos: - O que realmente é o Sagrado? Qual a sua força intrínseca?, poderemos, talvez, entender que “o Sagrado é a experiência do divino que fazemos neste mundo... Não temos condições de apanhá-lo e todavia sentimos que somos apanhados, somos incapazes de exprimi-lo e no entanto lhe sentimos a força intrínseca e o valor, não podemos reconhecê-lo definitivamente e apesar disso aceitamos os seus sinais e suas manifestações”.(2)

Por isso, na hora da nossa ou da morte de um de nossos estaremos diante do Sagrado, impotentes pela nossa dor ou sofrimento. Mas é desse confronto, com aceitação ou revolta, que deixaremos brotar nossa espiritualidade, reconhecendo que “uma atitude espiritual é uma atitude de confiança na profundidade do homem, o que no homem supera o homem; o que no homem permanece aberto a um além do homem”(1)

(1) Marie de Hennezel – A arte de morrer
(2) Aldo Natale Terrin – Antropologia e horizontes do Sagrado
É preciso mudar, e mudar o mudado.

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Re: O SAGRADO DIANTE DA MORTE

Nova mensagempor Jerry em 28 Jul 2010 21:07

No candomblé a morte é representada como um ser masculino, Ikú. Com seu bastão, Ikú toca o ori (cabeça) da pessoa, o que provoca sua morte. Isso é bastante emblemático, pois no candomblé todo o ritual de iniciação se passa basicamente sobre a cabeça da pessoa. A própria palavra orixá (guardião da cabeça) mostra a importância dessa parte do corpo para o iorubá. Quando nascemos por métodos naturais, a cabeça é a primeira parte do corpo que desperta para o mundo. Dessa maneira, quando partimos do aiyê (terra) para o orun (plano espiritual), é a cabeça também a primeira parte tocada por Ikú, a morte.

Diz a mitologia que o orixá que cuida dessa passagem da vida para o mundo espiritual é Oyá Iansã.

No candomblé há o ritual do axexê (vigília), que pode durar de um a vários dias de acordo com a senioridade da pessoa que morreu. Assim como na iniciação, ou nascimento para a religião, foram feitos rituais, o mesmo ocorre após a morte. Na cabeça da pessoa inclusive. É como se tivesse de se desfazer o que foi feito na iniciação, para que o morto se liberte do aiyê e se conscientize de que agora ele irá para o orun. Toda a parte material da iniciação, inclusive, será quebrada e "despachada", enviada para determinados locais. É todo um ritual de descompatibilização do morto para com esse mundo.

Assim como entre os gregos antigos se costumava colocar uma moeda na boca do defunto para pagar sua passagem, no candomblé também se recolhem moedas (o valor é apenas simbólico) como oferendas ao morto.

Agora ele virou Egun, ou Egungun. Ancestral. Se tiver filhos (biológicos e/ou espirituais) que cultuem sua memória, será imortal.

O luto no candomblé é branco, porque branca é a morte, e brancos são os ossos do morto.

Rituais para nascer, para viver e para morrer.

Pessoalmente acho-os belíssimos e necessários à nossa porção irracional. Mas, como já dito, não consigo acreditar numa vida após a morte. De qualquer forma, coerentemente com minha vida, faço questão que meu corpo inerte passe pelos rituais sagrados do candomblé. E que, havendo filhos, cultuem minha memória. Não por obrigação religiosa, mas pelo legado positivo que pretendo transmitir a eles.

Orô Ikú auá ni xolorô
É san folorô atoroxê

(Morte, senhor do rito, nós temos que celebrar o rito
Dizei aos fiéis que venham sempre celebrar o rito)
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Re: O SAGRADO DIANTE DA MORTE

Nova mensagempor Elza Marossi em 28 Jul 2010 21:21

No Japão a cor do luto é branco tambem...

O que observo é que embora muitas pessoas lutem contra a morte e outras se entregam, nunca ouvi falar de uma pessoa ao passar desta vida tenha blasfemado ou se revoltado contra DEUS, parece que há aceitção e consolo, talvez algo do campo SAGRADO como diz o texto.
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Re: O SAGRADO DIANTE DA MORTE

Nova mensagempor duvideodo em 30 Jul 2010 00:50

Jerry escreveu:Mas, como já dito, não consigo acreditar numa vida após a morte


Sério, indo no candomblé não consegue acreditar na vida após a morte? Totalmente arbitrário, tão arbitrário quanto jogar futebol!

Jerry escreveu:Pessoalmente acho-os belíssimos e necessários à nossa porção irracional.

Seu objetivo ao ir é tão "geral" assim? Duvido que não tenha um objetivo bem mais específico!
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