Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo : Religiões, Crenças & Teologia
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Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

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Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:37

Eu não sei como não fui me lembrar disso antes. Quando eu ainda fazia faculdade de História, a professora da disciplina História Antiga II trabalhou com a turma o livro do historiador marxista Ambrogio Donini, intitulado História do Cristianismo: das origens a Justiniano.

A princípio eu não entendi porque ela pediu tanto aos cristãos da sala que não se esquecessem de que estavam numa Academia, e que ali não era lugar para debates acerca da fé, e sim das evidências. À época eu era agnóstico, então nem dei muita bola para essa introdução. O que eu não poderia esperar era que as revelações, todas respaldadas, de fato sacodem a fé cristã.

Foi um pega-pra-capar na sala. Os cristãos, especialmente os evangélicos, à medida que o estudo prosseguia, tentavam de toda maneira (exceto através de evidências) desacreditar as informações. Até que chegou uma hora em que a professora, mestre na área, teve de dar um chega-pra-lá neles.

Dentre alguns fatos interessantes, posso citar de antemão que a cidade de Nazaré não existia na época em que Cristo viveu. Ou que as evidências apontam para o fato de que os escritores dos evangelhos nunca pisaram os pés na Palestina, motivo pelo qual cometem erros grosseiros em suas narrativas.

Achei por bem, ainda que possa ser um pouco exaustivo para mim, digitar e disponibilizar para todos nós os dois primeiros capítulos da obra. Todo dia vou postando um subtítulo, e aí fica melhor também para compartimentarmos a discussão.

O livro é esgotado, e quem morar numa cidade onde haja biblioteca universitária talvez o encontre. De qualquer sorte, a bibliografia é a seguinte:

DONINI, Ambrogio. História do cristianismo: das origens a Justiniano. Lisboa: Edições 70, 1983.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:38

O autor principia por fazer uma comparação entre budismo, islamismo e cristianismo, criticando este último por se arvorar ser mais histórico que as demais religiões. Critica ainda que as estatísticas desprezam o número grande de “ateus”, e diz que negar uma divindade não é sinônimo de falta de religiosidade. Transcreverei a partir do momento em que seu foco é o cristianismo, a partir da página 28. Daí por diante, a transcrição é ipsis literis.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:38

CAPÍTULO I
O PROBLEMA DAS ORIGENS: JUDAÍSMO E CRISTIANISMO À LUZ DAS DESCOBERTAS MAIS RECENTES

(...)

Ainda que deixemos de parte as profundas diferenças que existem no interior do mundo cristão, e que são o fruto do desenvolvimento gradual das forças sociais e espirituais no decurso destes dois últimos milênios, a procura de um fundamento histórico do núcleo originário da doutrina cristã torna-se complicada e, por vezes inextricável, precisamente pela língua dos textos mais antigos, aos quais nos devemos referir para reconstruir, se não a sua essência, pois uma tarefa tão desesperada é em grande parte infrutífera, pelo menos uma formulação satisfatória.

A trágica vivência do seu fundador, Jesus dito “o Cristo”, nos textos que reflectem as crenças e expectativas dos seus primeiros sequazes, é localizada na Palestina, com base num conjunto de mitos que se reclamam da revelação transmitida, em tempos imemoriais, na Bíblia, ao pequeno povo de Israel: o “pacto” solene, ou Antigo Testamento, intrometendo-se entre a divindade tribal, Javé, garante o destino da Nação, situado para lá das desventuras que tinham comprometido a independência daquele povo, e as fileiras privilegiadas dos seus fiéis.

Deste pacto, um verdadeiro contrato bilateral (“tu ser-me-ás devoto e eu serei o teu protector”), considerado ainda válido em termos de fé e de elaboração teológica, Jesus, o Messias, o “ungüento” do Senhor, o rei tão esperado pela literatura profética e pela fantasia popular, é apresentado como o renovador, o arauto. Será este o “novo pacto”, a nova aliança, o Novo Testamento.

Os poucos documentos que nos falam de Jesus, ou sejam, os quatro Evangelhos, os Actos dos Apóstolos, as vinte e uma Epístolas canônicas e o Apocalipse – vinte e sete ao todo, como o eram também os livros da Bíblia e as letras do alfabeto hebraico – não chegariam até nós na língua falada naqueles tempos na região onde teriam ocorrido os factos, o aramaico, nem tão-pouco no hebraico bíblico, transmitido pelas castas sacerdotais como a “palavra de Deus” e, deste modo, não modificável, mesmo que pudesse ser incompreensível; esses documentos aparecem-nos no dialecto grego popular das massas humildes e menos afortunadas do mundo mediterrânico, a koiné, que tinha sido adoptada nos últimos dois ou três séculos antes de Cristo, não sem disputas e modernizações, pela maior parte dos camponeses e artesãos de descendência judaica, os hebreus emigrados da Palestina e dispersos por quase todas as cidades do império romano e pelas zonas interiores da Ásia Menor, da Grécia e do Egipto.

Termos como Cristo, forma grecizada do hebraico Mashiah (o ungüento, o rei, o Messias, apelido e não nome próprio), ou apóstolo (enviado especial, delegado de administração e encarregado de levar para Jerusalém as colectas para a manutenção do Templo), presbítero (o ancião, donde veio a palavra “padre”), bispo (o que vigia), baptismo (o banho purificador), ágape (o amor e, mais tarde, banquete fraterno), eucaristia (acção de graças, refeição sagrada ritual), apocalipse (revelação) e, finalmente, evangelho (anúncio de um acontecimento feliz) e igreja (ekklesia, isto é, reunião, congregação dos fiéis), termos como estes, dizíamos, tinham ainda um significado religioso preciso para os hebreus da emigração, ou da “diáspora” e, neste âmbito bastante restrito, podiam também não ser mal entendidos ou interpretados de um ponto de vista extrajudaico; porém, tratava-se apenas de um canal forçado, através do qual a nova mensagem neotestamentária tinha sido elaborada precisamente por pessoas de cultura e origens completamente diferentes e para as quais a antiga terminologia religiosa já não tinha senão valor escasso e indirecto. Se pensarmos que nos dois únicos passos onde vem transcrita a palavra hebraica “Messias” (Evangelho de S. João, I, 41 e IV, 25), o autor se vê obrigado a recordar, para os fiéis que evidentemente já não o sabiam, que aquele vocábulo, traduzido, “significa Cristo”!

É também possível que alguns dos textos que começaram a fazer parte do Novo Testamento, no decurso dos primeiros três séculos da história cristã, tivessem sido originariamente redigidos em aramaico ou mesmo em hebraico. Mas nós apenas conservamos algumas expressões, repetidas actualmente sem mesmo serem compreendidas, como por exemplo: abba (pai), rabbì (meu mestre), alleluia (Deus seja louvado), amen (é verdade, e não “assim seja”), osanna (dá-nos a vitória, salva-nos) effata (abri), talithà kum (menina, levanta-te, a propósito do milagre da filha de Jairo, no Evangelho de S. Marcos, V, 41) ou tabithà kum (gazela, levanta-te, como se pode ler nalguns manuscritos gregos e num episódio análogo de ressurreição atribuído a S. Pedro, nos Actos dos Apóstolos, IX, 40) e pouquíssimas outras expressões.

Em todo caso, a ressonância típica da terminologia usada nas comunidades judaicas, anterior à perda da sua independência nacional, em 70 d.C., com Tito, e posteriormente, em 135 d.C., com o imperador Adriano, ao transferir-se dos centros de emigração para as massas de convertidos de origem não-hebraica, já não era a mesma: proclamava então outras idéias religiosas e outras práticas de culto, incompatíveis com a fé bíblica tradicional, mas imediatamente perceptíveis no ambiente dos pobres, dos deserdados, dos “sem história”, que a conquista romana reduzira a condições de servidão pessoal ou de total sujeição, no campo económico, social, jurídico, esquecendo as suas profundas contradições internas e o jogo de interesses recíprocos.

JUDAÍSMO PALESTINIANO E JUDAÍSMO DA “DIÁSPORA”

Os hebreus não eram os únicos que viviam organizados, fora dos seus confins territoriais, nas principais zonas de imigração do mundo mediterrânico, no início da nossa era.

Temos conhecimento, para além da dos hebreus, de uma “diáspora” dos sírios, com o seu culto estelar; dos persas e das populações do Ponto e Comagena, com o seu Mitra invencível; dos asiáticos das regiões costeiras da Anatólia, portadores de uma grande divindade feminina, a “mãe divina”; dos egípcios com o seu Serápis e a rainha Ísis, celebrada por Apuleio nas Metamorfoses (também conhecidas com o nome de o jumento de ouro) como omnipresente, “senhora dos elementos”, “mãe da natureza”; dos babilónios conhecidos pelas suas práticas astrológicas; dos africanos, originários da Numídia, da Mauritânia e do litoral cartaginês, com as suas divindades púnicas de fertilidade e de salvação; para não falar dos helenos, orgulhosos dos seus múltiplos sistemas filosóficos e morais.

Todos esses grupos viviam amigavelmente em conjunto, nos círculos e “colégios funerários”, nos mercados, nas corporações, nas administrações municipais e nos estabelecimentos universitários, em Atenas e em Corinto, em Tarso e em Alexandria (do Egipto), em Tessalonica e em Antioquia, em Rodes, em Chipre e em Roma.

Mas os hebreus, com o seu rígido monoteísmo e as suas características rituais e de culto, constituíam sem dúvida o núcleo mais homogéneo.

Ora, para um hebreu emigrado, habituado desde que nascera a fazer uso da língua grega, o termo Cristo – particípio passado do verbo chrio, ungir, qualidade político-litúrgica (aquele que foi formalmente designado, graças ao efeito sagrado do óleo, para assumir as mais altas dignidades do poder real ou sacerdotal), qualidade extensiva por vezes a estátuas ou a imagens de deus, a pedras ou a árvores sagradas – podia ainda ligar-se a uma experiência religiosa particular, com vista à instauração de um “novo reino”, de um estado genérico de felicidade e de bem-estar sobre a terra, tal como fora sonhado por alguns dos antigos profetas de Israel e pelos novos apocalípticos, desprezados pela aristocracia judaica, mas exaltados e feitos pelas próprias massas.

Tais factos foram comprovados, ainda recentemente, pela descoberta dos manuscritos hebraicos – e alguns aramaicos – escondidos há dezanove séculos nas grutas escavadas na parte posterior das paredes rochosas que se elevam junto às águas desoladas do Mar Morto, na zona que recebeu o nome de Qum-ràn, posto pelos árabes, que durante cerca de mil e quatrocentos anos tinham ocupado as suas margens. Como protagonistas destes factos, temos conhecimento de uma pequena comunidade de hebreus dissidentes da Palestina, considerados “hereges”, que já não aceitavam o poder indiscriminado do alto clero de Jerusalém e das corrompidas castas dominantes, pois a seu ver – e segundo a que será mais tarde a interpretação cristã prevalecente – tinham violado o “pacto” solene, feito entre a nação judaica e o seu Deus exclusivo, exigente e ciumento, o inominável Javé, pronunciado em voz alta como Adonai (“meu senhor”) na leitura tradicional, e que se tornou depois Jehovah, em português “Jeová”, quando foram introduzidas as vogais, entre o século V e o século X d.C., no texto consonântico da antiga Bíblia.

Mas fora destes ambientes, na emigração, a denominação “Cristo”, como arauto e inaugurador do tão esperado reino messiânico, não podia deixar de perder gradualmente o seu significado original, até ao ponto de ser interpretado como um novo nome da divindade, filho de Deus ou o próprio Deus, ainda antes de ser associado a Jesus; de tal forma, que em latim foi traduzido não por “ungüento”, mas por “Cristo”, como nome próprio. No Evangelho de S. Marcos, por exemplo, a expressão “Jesus Cristo” encontra-se apenas no prólogo (I, 1): estamos em face de uma fórmula compósita, tardia, que reflecte uma terminologia helenística, e não palestiniana. No resto da sua narração, S. Marcos fala sempre de Jesus, não de Cristo, e muito menos de Jesus Cristo; ao passo que o autor das epístolas atribuídas a Paulo de Tarso usa de preferência Cristo, à maneira da “diáspora”.

O próprio termo cristão (christianòs), que a partir de uma raiz grega tem a desinência do adjectivo latino, e que se encontra raramente, não mais de três vezes, no Novo Testamento, nasceu num ambiente não palestiniano: é provável que fosse usado em sentido de irónico desprezo (os “ungüentos”, os “emplastros”) para os distinguir dos hebreus da Sinagoga os recém-convertidos, gente estranha, com grandes cabeleiras, um pouco como os nossos “cabeludos”. Os Actos dos apóstolos referem que os “discípulos receberam pela primeira vez o nome de cristãos em Antioquia” (XI, 26), capital da província romana da Síria, onde vivia uma colónia de hebreus helenísticos de proveniência cipriota; já nos encontramos no século segundo, mas será necessário esperar pelas epístolas de Inácio, também de Antioquia, pelo “martírio de Policarpo”, pelos apologistas e pelos heresiólogos, para que tal denominação se torne de uso corrente. E, bem cedo, a própria assonância os obrigou a contraporem-nos aos “cesarianos”, uma espécie de classe privilegiada, partidária da casa dos Césares, recordados por Epíteto e por Apiano, entre o I e o II século: a oposição entre César e Cristo é um dos dados mais seguros que podemos extrair da literatura eclesiástica antiga.

Não admira, portanto, que os primeiros autores romanos que se ocuparam da nova religião, de Plínio a Tácito e a Suetónio, apenas falem de um Cristo, (ou “Cresto”, por vezes confundido com um nome obscuro de escravo ou com uma divindade oriental salvadora (o “benfeitor”, o “excelente), nunca falando de Jesus; também não admira que face a uma ausência de referências de qualquer espécie à sua pessoa nos livros de história do hebreu Flávio Josefo, que se tornou amigo e colaborador dos conquistadores romanos no decurso da guerra 67-70 d.C., a devoção dos fiéis tenha procedido, após o início do século IV da nossa era, à invenção de referências, com todos os requisitos dignos de crédito, como “fraude piedosa” sugerida por uma fé intensa e irracional, tal como aconteceu em outros e inúmeros casos nos anais de todas as religiões. Basta pensar, ainda no campo do cristianismo, na falsidade clamorosa que põe em contacto epistolar o procurador Pôncio Pilatos e o imperador Tibério, a propósito do processo e da condenação à morte de Jesus, tal como na correspondência apócrifa entre Séneca e S. Paulo, ou entre o próprio Jesus e o rei Abgar V, de Edessa, na Osdroena e, para não nos aventurarmos em tempos mais longínquos, na pseudodoação de Constantino, na qual o poder pontifício se teria apoiado em grande parte da Itália, durante a Idade Média.


[CONTINUA]
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:39

O que eu vou postar logo abaixo é a continuação do primeiro capítulo do livro do historiador italiano Ambrogio Donini, cuja bibliografia completa encontra-se na primeira postagem deste tópico.

O autor mostra-nos aqui que quem escreveu os Evangelhos canônicos não conhecia nem a geografia nem a topografia da Palestina, e cita vários exemplos que comprovam isso.

Mas ele vai mais além. Mostra absurdos em vários episódios bíblicos, alguns aparentemente irrelevantes, como:

* A inexistência de Nazaré à época que Jesus viveu;
* A legião de demônios que incorpora em centenas de porcos;
* A pomba como animal sagrado;
* O galo ter cantado antes de Pedro ter traído a Cristo três vezes;
* A refeição noturna do Senhor;
* O uso de uma moeda com a imagem de César por Cristo;
* A virgindade de Maria antes de conceber a Cristo;
* etc.

A tônica de Donini nestes casos não é simplesmente dizer que eram absurdos, mas mostrar que só poderia ter concebido tais idéias como fazendo parte do mundo hebraico apenas quem não tinha total intimidade com a Palestina, como era o caso dos hebreus que viviam fora. Leiam e vejam por si mesmos.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:40

[CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO I]

UM PAÍS FORA DA REALIDADE

Que todos os escritos que nos confiam o testemunho da pregação, da paixão e da morte de Cristo foram redigidos – ou, nalguns casos raros, traduzidos – fora da Palestina, e a grande distância das datas supostas para o desenvolvimento dos factos narrados, impregnados de anacronismos, de incoerências e de contradições, é um elemento que só nos é dado, em parte, pelos conhecimentos escassos e confusos que os autores desses escritos revelam em relação à geografia e à topografia política e religiosa da zona a que se referem e às tradições rituais e culturais do povo judaico.

A Palestina que tais autores descrevem é um país absolutamente fora da realidade.

Os evangelistas chamam “mar” ao lago de Genesaré (em hebraico Kinnèreth ou Kinnàroth), de 11 por 20 km apenas, ou de Tiberíade – porém, o nome desta cidade não figura nunca, a não ser num passo controverso do Evangelho de S. João (VI, 23), embora se tratasse de uma cidade importante na sua região, construída havia pouco tempo e elevada a capital da Galileia pelo menos até 61 d.C. – e para Jesus regressar de Tiro ao lado da Galiléia, os evangelistas fazem-no passar por Sídon, que fica 35 km para o norte, e fazem-no circundar o lago “no interior do território da Decápolis”, isto é, através das dez cidades da Transjordânia que, juntamente com Citópolis na Samaria, tinham formado uma aliança, sob a autoridade directa de Roma, completamente fora de toda esta região.

Muitos dos centros habitados deste país convencional, bem mais simbólico do que real, colocam sérios problemas de topografia, a começar pela pequena cidade de Nazaré, que não se encontrou citada em nenhum autor judaico anterior a meados do século IX – nunca no Antigo Testamento, nem em Flávio Josefo que menciona, no entanto, quase todas as localidades mais importantes da sua terra de origem – tudo leva a crer ter sido “inventada”, na base de uma falsa etimologia do termo nazareno ou nazoreu, que indicava simplesmente uma seita local de puros e de ascetas. As indicações que os Evangelhos nos dão sobre o monte da crucificação e da sepultura de Jesus (em dialecto aramaico Golgothà, ou “crânio”, “caveira”, em latim Calvària) são incertas e contraditórias; de resto, o local exacto apenas foi “descoberto” no tempo de Constantino, não antes de 326, em condições que levantam muitas dúvidas, pois esse local era consagrado a Vénus e quiseram-no cristianizar, asseverando que, contrariamente ao que se pensava, o que ali se encontrava era o túmulo de Cristo.

Acerca da flora e da fauna da Palestina, são-nos dadas informações genéricas, que podiam ser aplicadas a qualquer outro país do Mediterrâneo.

Referem o figo, a azeitona, a vinha, ao passo que ignoram as plantas típicas da região, como o cedro e a tâmara; numa das parábolas mais famosas, a do bago de mostardeira, fala-se desta planta, que atinge no máximo um metro de altura, como se fosse uma verdadeira árvore, com ramificações impossíveis. Os animais são os mesmos que se encontram na Ásia Menor, em Itália ou na África Setentrional: o lobo, a víbora, o corvo, a raposa, a ovelha, a cabra, o burro, os gafanhotos. Mas os Evangelhos sinópticos referem candidamente que na “terra dos Gerasèni” segundo S. Marcos (V, 1-20) ou dos “Gedarèni”, segundo S. Mateus (VIII, 28-34), ou dos “Gergesèni”, segundo S. Lucas (VIII, 26-39), precisamente nos sítios onde o porco era o animal mais impuro, se podia encontrar uma vara de duas mil cabeças, que se teria precipitado nas águas do lago. No entanto é verdade que num local da emigração, em Elêusis, existia um rito de purificação helênico, que consistia em deitar porcos ao mar, carregados com todos os pecados da comunidade, o equivalente pagão do “bode expiatório” judaico e do “cordeiro de Deus, que carrega consigo todos os pecados do mundo”, da liturgia cristã.

A pomba, que desce sobre Jesus como o “espírito de Deus” no momento do baptismo, era um animal sagrado dos samaritanos, gente odiada e desprezada, pelos hebreus mais convictos, como estrangeiros e hereges; mas na emigração, na Síria, e no mundo greco-romano, a pomba era dotada de atributos divinos, como símbolo de Astarte e de Afrodite-Vénus. Os evangelistas crêem que, na noite da paixão, um galo cantou três vezes em Jerusalém, enquanto o Talmude, colectânea dos passos bíblicos e das normas ético-jurídicas judaicas, um pouco posteriores à fase apostólica, nos informa que não existiam galos na cidade santa. O conhecido episódio da transformação da água em vinho, por ocasião das “bodas”, não melhor precisadas em Canaã, na Galileia, episódio que apenas é referido no Evangelho de S. João, recorda, na realidade, um rito de purificação, no desenrolar das “bodas sacras” de Dioniso que, para melhor celebrar tal ierogamia, tinha dado às Ménades o poder de trocar a água por vinho, no dia da inauguração das taças, pequenos vasos de pedra preparados para as abluções habituais dos hebreus. E os exemplos poder-se-iam multiplicar.

A Judeia dos Evangelhos é um país onde nunca chove, onde nunca há frio e onde os pastores passam as noites ao ar livre no Inverno. Na Galileia, os camponeses e os próprios discípulos de Jesus trajam indumentárias gregas: o himation, o chitone e a clamide, e não as que eram características das pessoas da região. Os apóstolos têm, na sua maioria, nomes gregos: Filipe, André, Tadeu, que é o equivalente de Theuda o Dositeo, os dois Simões, nome bem diferente do “Sumeone” do Evangelho de S. Lucas (II, 25), e João, “Ioànnes”, que não pode derivar do hebraico ionah, “pomba”, ainda que tal assonância possa ter contribuído para fazer nascer a lenda da descida do céu do símbolo divino do “espírito” de Javé, invocado por S. João Baptista, Mateus, ou Levi, Bartolomeu (“filho de Ptolomeu” em aramaico), Tomé, forma grecizada de toma, o “gêmeo”, embora não se saiba bem de quem, e os dois Judas, o Iscariotes e o que nalguns passos também recebe o nome de Tadeu, são certamente nomes semitas. Tiago, por seu lado, de Iàqub, transcrito em grego “Iàkobos”, pode ter sido confundido com Iacchos, um dos nomes míticos de Dioniso: o barulhento, aquele que grita. Talvez daí o seu apelido, extensivo ao seu irmão João, de “Boanergès”, do aramaico “filho do som”, mas que, na realidade, significava em grego “a voz possante”.

No campo mais propriamente religioso, a ideia de mandar beber o sangue – e de consumir a carne – de Cristo, por ocasião da última ceia, à memória do seu sacrifício, não podia surgir senão num ambiente não hebraico, dado que a lei judaica proibia severamente o consumo do sangue (Génese, IX, 4-5; Levítico, III, 17, XVII, 10); tal “tabu”, reconhecido igualmente nos Actos dos Apóstolos como figurando entre as decisões do chamado “decreto de Jerusalém” (XV, 20), é ainda válido para os israelitas de hoje. Quem quer que tivesse dito, na Palestina: “Tomai e bebei, este é o meu sangue”, teria logo sido apedrejado no lugar; não na emigração, onde tal rito era comum a muitos cultos de mistério. Na liturgia egípcia de Ísis, o sacerdote, ao benzer a taça, pronunciava a frase ritual: “Tu és vinho, e não és vinho, mas as vísceras de Osíris”. Comer a carne de Deus, do próprio Deus, era também algo de impossível para um hebreu; mas Átis e Mitra, divindades orientais, tinham instituído, antes da sua morte, numa espécie de “última ceia”, um rito de comunhão com o pão, que simbolizava o consumo dos seus corpos.

O conhecidíssimo episódio da moeda que Jesus teria pedido precisamente em Jerusalém, para afirmar a legalidade do tributo fiscal “a César” e, portanto, o denarius de ouro ou de prata – só bastante mais tarde aparecerá a cunhagem em cobre – cunhado com a efígie do imperador, é um episódio que não era possível na Judeia. Dada a aversão dos hebreus face à reprodução da imagem de um homem, nem que fosse numa simples moeda (“tabu” ancestral, próprio também dos povos árabes), os romanos tinham-lhes feito a concessão de cunhar moedas de bronze, sem qualquer representação humana. Numa cidade da “diáspora” teria sido um facto natural; em Jerusalém, teria dado lugar a incidentes e a contestações. Os fariseus teriam tido ocasião de apanhar Jesus em falta, não tanto em relação ao pagamento do “censo”, mas devido ao sacrilégio de manusear um objecto impuro, intocável. É provável, todavia, que este caso se refira às polémicas surgidas entre os hebreus na emigração, no tempo de Domiciano, nos finais do século, no seguimento das disposições que previam fazer entrar para o erário imperial os contributos que eram enviados para o Templo, depois de sua destruição no ano 70.

A propósito do grande problema do “repúdio”, ou divórcio, o Evangelho de S. Mateus (XIX, 9 ) declara que ele pode ser lícito apenas em caso de adultério por parte da mulher; porém, S. Marcos põe na boca de Jesus que “uma mulher que repudie o marido, para casar com outro, é adúltera” (X, 12), revelando deste modo uma ignorância abissal relativamente ao direito matrimonial hebraico, que não conhecia o divórcio pedido por iniciativa da mulher. Tal direito era absurdo na Judeia, mas na emigração, e sobretudo em Roma, era um caso muito frequente. Mais uma vez nos sentimos transportados para um ambiente completamente diferente do da terra de origem.

Para um hebreu palestiniano, proclamar-se “filho de Deus”, para além do natural reconhecimento da paternidade atribuída à divindade por quase todas as religiões, constituía um delito passível de pena de morte imediata (S. Marcos, XIV, 64; S. João, XIX, 7); tal locução era, no entanto, normal na emigração, nos centros do mundo greco-romano, desde que o nome de Dioniso, de raiz traço-frígia, entrara precisamente com este sentido nos cultos de mistérios helénicos (nùsos significa “filho”). Um “filho de Deus” também podia morrer: é o caso do próprio Dioniso-Orfeu, além de Asclépio, morto pelo fulgor de Zeus, e de Hércules, que pereceu no meio de chamas. A designação era igualmente extensiva aos imperadores romanos: uma inscrição grega, num pedestal de mármore, em Pérgamo, na Ásia Menor, saúda Augusto como “filho de Deus”: talvez fosse o equivalente do divi filius latino.

A leitura do Evangelho revela, a vários níveis, mas sempre claramente, a preocupação de mostrar que Jesus realizou, na sua vida e nas suas gestas, as profecias e as indicações messiânicas do Antigo Testamento.

Um facto que nos surpreende é o de todas as citações da Bíblia não terem sido traduzidas para o grego directamente do hebraico, como seria de esperar; são sempre tiradas da chamada “versão dos setenta”, de origem alexandrina, que circulava nas comunidades judaicas da emigração. É sabido que esta tradução, da qual nos fala nos inícios do século I a.C. a famosa Carta de Arísteas ao irmão Filócrates, se afastava então da acepção hebraica tradicional; segundo a lenda, deveria ter sido elaborada por ordem do rei Ptolomeu Filadelfo (282-246 a.C.), para uso de mais de um milhão de hebreus imigrados, em Alexandria (do Egipto). Pensava-se que tinha sido levada a cabo, sob a inspiração divina, por 70 (ou 72, seis para cada uma das 12 tribos de Israel) peritos, em 70 (ou 72) dias; na realidade, requerera mais de meio século de trabalho. A versão referida introduziu no grego koinè muitos semitismos e elementos lexicais locais; só mais tarde, entre o século I e II d.C., apareceram as versões de Aquila, Símaco e Teodósio, por vezes ainda menos fiéis do que a dos “Setenta”.

Tudo isto, entre outros factores, deu origem a algumas formulações dogmáticas, nos Evangelhos, como a do “nascimento virginal” de Jesus, que se devem a erros crassos de tradução.

A “jovem mulher”, em hebraico halmah, que, segundo um passo do profeta Isaías (VII, 14), tomado em sentido messiânico só no Evangelho de S. Mateus (I, 23), teria concebido um filho, antes do rei da Síria e do rei de Israel, coligados, tentarem expugnar Jerusalém, já se tornara, na versão dos “Setenta”, talvez sob a influência de mitos partenogénicos solares ligados ao culto de Ísis, uma “virgem”: daí a ideia de um parto miraculoso do Messias, inconcebível num ambiente palestiniano, mas aceitável em território helenístico. O Cristo da tradição hebraica deve ter sido um homem da “semente de David” e não uma personagem divina, nascida de maneira sobrenatural.

No mundo greco-romano, porém, a vinda à luz de seres excepcionais era imediatamente associada a intervenções prodigiosas, ou mesmo a episódios de “partenogênese” (parto virginal), como foram os acasos de Pitágoras, Platão ou do próprio Augusto. Perseu nascera de Dánae, virgem fecundada por uma chuva de ouro; o apologista cristão Justino, no século II d.C., chegará a ver nesta analogia uma invenção diabólica, tendente a afastar os homens da via justa (Apologia primeira, LIV).

Algo de semelhante verificar-se-á depois num dos inúmeros textos “apócrifos”, isto é, não inspirados, “escondidos” sob um nome falso, mas nem por isso menos válidos para uma reconstrução da primitiva ideologia eclesiástica, o Evangelho do Pseudo S. Mateus, cap. 14, onde o Menino Jesus aparece acomodado na manjedoura “entre dois animais”, a vaca e o burro do presépio tradicional. Trata-se, na realidade, de um erro banal de tradução, do grego dos “Setenta”, de um passo do profeta menor Habacuc, III, 2, onde se pode ler que o futuro Salvador de Israel se teria dado a conhecer “entre duas épocas”, ou seja, no nosso tempo, nos nossos dias: para o genitivo plural de época e de animal, a língua grega tem uma mesma palavra, e em latim a expressão foi traduzida por “in médio duorum animatilium”, no meio de dois animais!

Poder-se-ia citar outros casos. Mas o resultado é sempre o mesmo, isto é: os Evangelhos foram pensados e redigidos longe da Palestina, em ambientes ainda ligados ao judaísmo, mas já sob a influência de motivos religiosos orientais e helenísticos, de inspiração não-bíblica.


[CONTINUA]
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:41

Bem, pessoal, dando prosseguimento ao primeiro capítulo da obra, vou postar agora a continuação, onde Donini expõe a existência de outras seitas messiânicas na Palestina à época de Jesus. Até aí nenhuma grande novidade.

A parte mais interessante é quando o historiador mostra que a espera de um reino de mil anos como antecessor de uma eternidade no paraíso também é anterior ao cristianismo. Até a lógica da Torre para apontar 1975 como a provável data do Armagedom por conta do aniversário de seis mil anos da criação também não era nenhuma novidade. Claro que não se pensava nesta data específica, mas o princípio do descanso sabático de mil anos e do paraíso em seguida, sim.

Por fim, o autor destaca a importância dos apocalipses, vários àquela época, no desenvolvimento da doutrina cristã, que prometia redenção aos subjugados por Roma.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:42

[CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO I]

A LITERATURA DA OPOSIÇÃO

A possibilidade de recorrer à língua hebraica original, ou ao dialecto aramaico, para expor visões místicas de carácter messiânico e regras de vida comunitária, nos tempos de que se reclamar ser os dos Evangelhos, já não pode ser excluída, estando mesmo fora de discussão hoje em dia. Foi o que demonstraram os numerosos manuscritos, recentemente descobertos na Palestina, nas margens do Mar Morto: e nisto consiste, só por si, um dos ensinamentos mais importantes do seu aparecimento.

Os autores destes textos, em rigor, não podem dizer-se “cristãos”, pois para eles o Messias (Cristo) ainda não apareceu: por vezes parece até que se desdobra num Messias sacerdotal (o “Cristo de Arão”) e num Messias político-militar (o “Cristo de Israel”). Mas na sua terminologia, na descrição dos ritos característicos da sua vida comunitária, na veneração que os liga aos seus fundadores, o “Mestre justo”, vítima do ódio do alto sacerdócio gerosolimitano , e que viveu pelo menos cem anos antes da nossa era, morto e talvez crucificado pelos seus perseguidores, subido aos céus, de qualquer modo esperado novamente sobre a terá, e fonte de salvação para quem tem fé nele e participa na vida da sua comunidade, também chamada a “Nova aliança”, ou seja, o Novo Testament, em tudo isto, dizíamos, já se encontra o essencial da primitiva narração evangélica e da experiência litúrgica das igrejas cristãs mais antigas.

Sabemos com segurança que estes manuscritos foram poupados à destruição e escondidos, com artifícios ingénuos mas eficazes, nas inúmeras grutas do Qumràn, na zona do Mar Morto que se sabia ser rica em mineral – daí o nome de “Lago Asfaltide”, dado pelos geógrafos –, aquando da chegada dos conquistadores romanos, no decurso da primeira grande revolta judaica, esmagada pelas legiões de Vespasiano e de Tito entre 66 e 73 d.C.; os possuidores dos manuscritos, tendo partido para uma guerra santa para a qual haviam previsto um êxito vitorioso nalguns dos seus escritos (sobretudo no tratado sobre a Guerra dos filhos da luz contra dos filhos das trevas), foram todos exterminados, sem que nenhum deles pudesse regressar ao mesmo sítio, para pôr a salvo os documentos que testemunhavam as suas crenças e as suas esperanças quiméricas.

A descoberta acidental deu-se somente dezanove séculos depois a partir de 1945. Achados ocasionais já tinham sido assinalados anteriormente, tendo deixado umas certas pistas em relação à formação de alguns grupos hebraicos dissidentes, durante a Idade Média, como os karaiti, ou “fiéis das grutas”; tudo era, porém, parcial e fragmentário. Escavações recentes trouxeram à luz restos arqueológicos de outras comunidades afins, com cinco centros escalonados em 2 quilômetros ao longo das margens do Mar Morto, a cerca de 15 km para sul da “casa mãe” do Qumràn, com candeias e moedas que remontam ao tempos de Herodes, o Grande, de Arquelau e de Agripa I, não posteriores a 42-46 d.C., com perto de 600 túmulos, do mesmo tipo dos do Qumràn, e com inscrições hebraicas de grafia muito semelhante à dos pergaminhos anteriormente encontrados. O chamado Documento de Damasco, descoberto nos fins do século passado, num retábulo sagrado de uma sinagoga do Cairo, recordava precisamente a existência de uma comunidade messiânica e dava uma espécie de relatório, do momento em que o “Mestre único” se elevara aos céus até ao advento do Messias de Arão e de Israel.

Estes grupos tinham portanto uma consistência bem mais solida e desenvolvida do que se poderia pensar à primeira vista.

Não se pode excluir que um destino análogo, de destruição, tenha cabido aos textos hebraicos e aramaicos, aos quais podia ter sido confiada a memória de um outro profeta e reformador, o “Mestre Galileu”, chefe de outro núcleo dissidente, também hostilizado pela aristocracia sacerdotal e pelas castas dirigentes, cujas posições tinham sido conquistadas aos ocupantes romanos; algo de mais preciso poderá vir a ser conhecido um dia, graças a outras descobertas. Encontramo-nos, contudo, no campo das hipóteses; entretanto, um dado historicamente provado é que, qualquer que tenha sido a saída da Palestina da situação dramática em que vivia, aliás bastante modesta, referida pelos evangelistas, a sua formulação e a sua tradução, não apenas filológica, mas sobretudo conceptual, não pode ter tido lugar senão fora daquela região, num ambiente de imigrados judaicos com contacto com pessoas de língua e costumes helenísticos.

Tudo isto priva naturalmente a literatura do Novo Testamento de qualquer valor que seja de fonte textual directa. Desta situação procuram sair, em vão, os teólogos de profissão e os historiadores que continuam a orientar-se numa base de preconceitos fideístas, sem chegarem a nenhuma conclusão plausível – tal como fora já o caso das gerações cristãs dos séculos segundo e terceiro, preocupadas em dar uma consistência histórica ao que era essencialmente uma questão de fé.

Mas o que tem interesse, no desenvolvimento de qualquer movimento religioso, não é tanto uma série de ideias doutrinais precisas, que precederam a sua actuação concreta, a ponto de quase se poderem colocar num imaginário registo documental; o que conta são os homens de carne e osso, que foram os portadores de tais ideias, com a sua maneira de viver, de trabalhar, de pensar e, sobretudo, de esperar, em conflito com as classes possuidoras, que sempre procuraram monopolizar não só a felicidade sobre a terra como a sua distribuição hierárquica no além.

É para os homens reais que devemos volver a nossa atenção – antes mesmo de o fazermos em relação às ideologias, ao fantástico e aos sonhos tenazes de que se fizeram intérpretes – para nos libertarmos das contradições e dos absurdos a que chegaram a crítica neotestamentária e a reconstrução das origens cristãs, após séculos de trabalhosas investigações.

Continuamos ainda nos tempos históricos. O anúncio da “boa nova” não é criação do nada – como avisava Antonio Labriola no seu admirável ensaio, Da um secolo all’altro, há mais de sete décadas. É necessário repercorrer o caminho que do judaísmo bíblico, dos cultos de mistérios e da crise moral de toda a sociedade greco-romana, levou as massas a orientarem-se para as novas fés e novas morais.

Os escritores do Novo Testamento são o fruto da fé, de uma elaboração mística que se articula fora da realidade, no campo da imaginação e da piedade ritual. Mas os autores destes textos – e aqui não interessa verificar se se chamavam verdadeiramente Mateus e João, Paulo e Pedro, Tiago e Lucas, pois o elenco é bastante mais vasto e ultrapassa o número restrito mencionado no “cânone” – eram homens reais, filhos do seu tempo, saídos de determinado mundo, em relação com determinadas situações históricas e pregoeiros de mensagens que encontram a sua explicação e o seu fundamento nas condições sociais, económicas e culturais, nas quais se formaram.

Em toda a Antiguidade, e durante grande parte da Idade Média, a voz da oposição à prepotência das classes privilegiadas, quase sempre oculta sob um revestimento religioso, foi sufocada e viu-se obrigada, para sobreviver, a usar de toda a sagacidade e de todo o tipo de simulação: anonimato, atribuição a personagens míticas ou a outras, acima de qualquer suspeita, aceites pelos dominadores, como a Sibila eritrea, que os pobres de Israel tinham acabado de identificar com uma parente próxima de Noé, e que os romanos haviam confundido com a Sibila cumana da écloga quarta de Virgílio. Esta forma de protesto, que se traduz em toda uma série de visões, de profecias, de anúncios de catástrofes cósmicas e sociais, nas quais se previa mais ou menos abertamente o fim da Idade Antiga e da sua classe dominante, bem como o Advento de uma “nova era”, atingira uma difusão tal, que chegava por vezes aos próprios estratos culturalmente mais sensíveis das classes no poder, como é precisamente o caso de Virgílio.

A Sibila, segundo Ovídio, estava encarregada de guiar os heróis até aos infernos e de os levar, mil anos depois, para a felicidade dos Elíseos. Mas, no carme virgiliano encontramos algo mais e um pouco diferente: o vaticínio de uma “nova progênie descida do céus” e de uma restauração entre os homens da paz, e das liberdades violadas. Era este o sonho das massas esmagadas pela economia esclavagista, que lançavam gritos de revolta, após as tentativas falhadas de insurreição armada, não só na terra dos judeus, mas em todos os ambientes mais miseráveis do mundo greco-romano, da Sicília à Ásia Menor, da África Setentrional ao reino do Bósforo, que se estendia até ao actual território da União Soviética, da Gália às zonas disputadas por partos e romanos, na Mesopotâmia e na Síria, onde um dia nascerá o mito de “Nero redivivo”, que fará o império pagar por todos os delitos cometidos, mais frequentemente sociais do que políticos.

Daí também o conceito de “milénio”, idade feliz, de abundância e de justiça para os pobres, que nada tem a ver com o suposto medo do fim do mundo nas vésperas do ano mil, invenção da escola romântica. Segundo o Salmo 90 da Bíblia, “cada dia vale mil anos para o Senhor”; e dado que a obra da criação durou sete dias, a vida do mundo deverá durar uma semana de milénios e o “sábado do grande descanso”, o reino milenário, o oitavo, o da eternidade, apenas terá início depois. A doutrina persa dos hazar, ou reino dos mil anos, que deviam preparar o advento do reino de Ormusd (Ahura-Mazda, o deus bom do dualismo zaratustriano), contribuiu sem dúvida para o crédito dado a estes piedosos devaneios judaico-cristãos.

A esta literatura da oposição, que pode ser considerada a verdadeira pré-história de todo o movimento cristão, pertencem, em primeiro lugar, os textos apocalípticos, atribuídos a personagens fictícias da Bíblia ou do mundo judaico em geral, textos esses pensados e redigidos em hebraico ou em aramaico, quase sempre perdidos na língua original, mas traduzidos mais tarde para grego e para latim ou conservados em toda uma série de línguas menos expostas à repressão por parte das autoridades constituídas (copta, arménio, georgiano, sírio, etíope, árabe e eslavo), no meio de populações que, evidentemente, sentiam a necessidade de recorrer à sua palavra incandescente de denúncia da injustiça e de confiança na vinda de um novo céu e de uma nova terra.

Devemos atentar sempre nestes textos, para melhor compreendermos a formação ideal e social dos autores dos textos mais antigos de verdadeira inspiração cristã, a partir do Apocalipse, inserido no cânone neotestamentário e atribuído a um dos tantos Joões nos quais é rica a história da igreja primitiva. Relativamente a uma tal febril solidariedade com todos os “humilhados e ofendidos” da época, unidos pelo ódio contra Roma, o Apocalipse joanino constitui um documento insuperável, desde que seja lido como um testemunho existencial da fé na vitória iminente dos “justos”, trazidos a uma nova vida, num mundo arrebatado a Satanás, isto é, ao domínio e à crueldade do poder imperial, e não como uma simples antecipação da doutrina dos “últimos acontecimentos”, os novíssimos da escatologia católica corrente (morte, juízo, inferno e paraíso).

O equivalente ideológico, no mundo greco-romano, é-nos dado pela literatura que subsistiu das religiões “mistério”, dos cultos de paixão, morte e ressurreição de inúmeros salvadores divinos ou semidivinos (Dioniso, Orfeu, Zagreu, Deméter, Osíris, Adónis, Átis e Mitra) e, sobretudo, pelos papiros e pelas folhas áureas, às quais era confiada a aspiração à beatitude terrena e à imortalidade celeste dos iniciados, recolhidos entre as classes menos abastadas, excluídas nesta vida e na outra de todos os benefícios do culto oficial, que não era senão a tradução, em termos religiosos, de uma condição humana de supremacia económica, política e cultural.


[CONTINUA]
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:42

Bom, dando prosseguimento ao primeiro capítulo do seu livro, Donini passa a expor os significados de termos como "israelita", "judeu" e "hebreu". Ao tempo de Jesus, mostra o significado de "galileu" naquele contexto. Mostra ainda até onde ia de fato o tão falado "monoteísmo" judaico. Fala de Satanás, o opositor a Javé, e como divindades cananéias foram associadas a ele.

Sendo marxista, Donini minimiza a influência do zoroastrismo na concepção dualista que o judaísmo e, posteriormente, o cristianismo, fazem da realidade, dividindo-a em bem e mal absolutos e opostos. O historiador diz que isso é comum a todas as religiões, o que entra em contradição com outros estudiosos da religião, como Norman Cohn e Mircea Eliade. Sendo marxista, Donini esqueceu-se, entretanto, de aplicar o maniqueísmo a seu próprio sistema ideológico, mas isso já é outra história.

Por fim, explana brevemente que tipo de salvador os judeus do primeiro século esperavam.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:43

[CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO I]

AGITAÇÃO SOCIAL E DUALISMO RELIGIOSO

No alvorecer da nossa era, a religião judaica, segundo as fontes mais dignas de crédito, que vão do século II a.C., ao século II d.C., e, portanto, desde a última chama de independência, no tempo dos cinco irmãos Macabeu (em hebraico “marteladores” do inimigo), que se insurgiram em 168 a.C. contra a ocupação sírio-helenística, até ao desaparecimento definitivo da nação hebraica como entidade política e territorial, em 135 d.C., a religião judaica, dizíamos, era bem diferente da que tinha sido transmitida pelos escritores do Antigo Testamento.

A reunião dos textos bíblicos acaba aproximadamente com a nova dinastia dos Asmonianos. Mas depois de as rivalidades entre os reis Aristóbulo e Hircano terem permitido a Pompeu entrar em Jerusalém e profanar o Templo, num sábado do Outono de 63 a.C., subiu à ribalta uma hábil figura, convertida ao hebraísmo pouco tempo antes, amiga dos romanos e que em 40 a.C. fora reconhecida pelo Senado como “rei da Judeia”: tratava-se de Herodes, o Grande, cujos últimos anos de reinado vão coincidir com o nascimento de Jesus.

Judaísmo era o nome que então se dava, após a ruína dos dois antigos reinos de Israel e de Judá, destruídos pelos impérios esclavagistas vizinhos da Mesopotamia e do Irão (babilónios, assírios, medas e persas), entre os séculos VII e V a.C., à religião da parte meridional da Palestina, a Judeia, que tinha a sua capital em Jerusalém; as outras duas regiões, a Galileia a norte e a Samaria no centro, tinham sido radicalmente transformadas, com as deslocações de populações inteiras de outra origem.

A Samaria, que não atingia o meio milhão de habitantes, tinha-se então constituído sobre uma base religiosa autónoma, com um templo próprio no Monte Jerisim e com uma divindade que se apresentava como rival de Javé de Jerusalém; a capital, Samaria, destruída por João Hircano I em 107 a.C., tinha sido reconstruída por Herodes e dedicada ao imperador Augusto com o nome de “Sebasto”. A oriental, para lá do Jordão, as cidades gregas da “Decápolis”, política e socialmente autónomas, eram também olhadas com profunda aversão e frequentemente saqueadas pelos hebreus mais pobres.

A Galileia, a zona fértil do país, palco de agudos conflitos sociais, tinha sido reconvertida pela força e hebraizada pelos Asmonianos, por volta de 104-103 a.C.; mas manteve sempre um carácter rebelde, uma resistência popular aberta, nos confrontos com os senhores da Judeia. Após Pompeu, o maior número de revoltas, na Palestina, partiram sempre da Galileia; o poder central respondia sufocando a luta armada, com a destruição das colheitas e o extermínio de famílias inteiras.

No tempo de Jesus, Galileu tornara-se quase sinónimo de “salteador”: a vida do salteador tornara-se, aliás, uma das soluções extremas a que normalmente recorriam os camponeses empobrecidos e os escravos, o que não se passava somente na Palestina. Não é de admirar que os primeiros grupos cristãos fossem mais tarde identificados, pelos bem-pensantes e pelos nacionalistas hebreus, como os gameus. “Indivíduos vagabundos e espertalhões”, dirá Flávio Josefo na sua Guerra Giudaica (II, 13-14), “sob a máscara da inspiração divina, conduziam as multidões a um delírio exacerbado, levando-as para o deserto, onde Deus, segundo eles, teria indicado os sinais próximos da liberdade”; na realidade, eles “não procuravam outra coisa senão mudanças e revoluções”.

Israel e israelitas eram sempre os nomes que a piedosa tradição judaica invocava para definir o “povo de Deus”, remontando aos tempos da monarquia unida. Hebreus, pelo contrário, era o nome que tinha sido dado, pelos povo limítrofes, às tribos de “saqueadores” beduínos estabelecidos, nos fins do I milénio a.C., do lado de cá do Jordão; era então raramente usado, embora venha depois a prevalecer. No Novo Testamento encontra-se apenas três vezes e não consta nos quatro Evangelhos; encontramos escassas vezes israelitas e quase sempre judeus.

Naturalmente, o termo “judeu”, apesar do forte antijudaísmo que circulava também então no mundo mediterrânico, com bases mais superestruturais e sociais do que abertamente étnicas e religiosas, não implicava ainda aquele carácter de escárnio e de condenação que assumirá depois na tradição cristã, devido sobretudo à identificação forçada do povo hebraico com o Judas “traidor” da lenda evangélica. Era, pelo contrário, um título de honra e de orgulho, para quem se sentia vinculado à lei de Moisés; na “diáspora”, era o único termo correntemente usado.

Decerto que a fé num único ser supremo, possessivo, intransigente, à margem do racismo, nascido em condições que prevaleciam entre as doze tribos de Israel descrita nos livros mais antigos da Bíblia, após as fases do animismo primitivo e do politeísmo agrícola, ultrapassado pela afirmação da monarquia, mas nunca apagado a nível popular, constituía ainda a característica dominante, aquele que mais impressionava os não hebreus no mundo circundante. Devemos, porém, fazer um esforço, se queremos sair das brumas do mito e aproximar-nos mais da vida real das massas, para compreendermos que o monoteísmo ritual da classe dirigente judaica não passava do reflexo ideológico da sua pretensão a exercer o monopólio do poder; ao passo que a nível dos estratos subalternos, assim como dos elementos dos grupos dominantes que tinham entrado em crise, devido ao destino desastroso da nação, a crença em toda uma série de potências benéficas ou maléficas, escondidas a custo do Senhor do céu, assim como dos senhores da terra, condicionava de maneira radical o próprio princípio da unidade de Deus.

Satanás, o adversário, o “acusador” da teodiceia bíblica, rebelde, mas substancialmente subordinado a Javé, tinha acabado por conquistar uma consistência real e multiplicar-se em diversas pequenas divindades malignas, que foram buscar para os seus nomes os dos antigos deuses destronados: Belzebu, do homónimo “deus das moscas”, Astarote, da lasciva Astarte dos ritos da fecundidade fenícios, Beliar, constantemente mencionado nos manuscritos do Mar Morto, de “Baal” ou “Bel”, o poderoso ídolo cananeu, sinónimo de “Senhor”. É costume pensar que este dualismo tendencial foi o resultado da influência exercida sobre os hebreus pela religião persa, que desenvolve de maneira característica o tema do contraste entre um deus bom, Ormusd (Ahura-Mazda) e o seu antagonista Arimânio (Angra Mainyu), espírito do mal; trata-se de uma interpretação de conveniência, que não tem em conta as raízes reais de cada religião.

O dualismo, após a cisão da sociedade humana em classes contrapostas, tem estado sempre na base de todas as concepções religiosas, onde quer que se manifestem situações políticas e sociais análogas.

Dualistas eram os cultos de salvação; dualista era a distinção entre espírito e matéria, que também foi feita pela filosofia idealista; profundamente dualista foi-o sempre, e é ainda, o cristianismo, que dá às forças demoníacas uma existência autónoma, eterna, dificilmente compatível com uma teologia monoteísta. Não é por acaso que já Orígenes, um dos representantes máximos da patrística, na primeira metade do século III, defendia a tese de que o inferno não podia durar para a eternidade e fazia previsões sobre a altura em que todos, bons e maus, seriam reabsorvidos numa única natureza divina; esta tese foi retomada recentemente por alguns dos expoentes da “moderna teologia”, após o Concílio Vaticano II, e já assinalada, por exemplo, nos escritos do monsenhor Raffaello Lambruschini, há mais de um século.

Estes elementos dualistas encontram-se sobretudo nos profetas de Israel e estendem-se depois a toda a literatura chamada “apócrifa” que, embora a outro nível, continua a sua pregação, a partir do século II a.C.: os Salmos de Salomão, o Livro de Enoch, o Livro dos Jubileus, os Testamentos dos doze patriarcas, o Livro IV de Esdras, a Assunção de Moisés, os Apocalipses atribuídos a Baruch, a Esdras e a outras personagens bíblicas lendárias. É certo que o advento de melhores tempos, nesta vastíssima literatura, redigida em hebraico, em aramaico e, por vezes, em grego, se relaciona com a espera de um Rei, o Messias, que manteria os inimigos de Israel sob o seu jugo, apresentado também como “o homem” por excelência, o “filho do homem” do profeta Daniel (VII, 13), que prevê o nome messiânico de Jesus; mas a nível das massas, a estes aspectos políticos e nacionais, que interessavam sobretudo à aristocracia e às classes possuidoras em geral, sobrepunham-se também fortes reivindicações sociais. Segundo Malaquias (I-IV), os prepotentes seriam consumidos pelo fogo, como numa fornalha, surgindo entretanto o “sol da justiça”.

O Messias de estirpe davídica, restaurador de um reino temporal, será identificado pelas classes mais humildes com uma espécie de vítima expiatória, explorada como eles: o “escravo sofredor” do segundo Isaías (LII, 13 e seguintes), que, com o seu martírio, é chamado a resgatar a dor de todo o povo, como nos cultos helenísticos de salvação. Segundo o Salmo 130 da Bíblia, “salvar” significava na origem “libertar pagando um resgate”; tal é o sentido do termo hebraico padah.


[CONTINUA]
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:43

O próximo subtítulo transcrito abaixo, "A Comunidade da Nova Aliança", faz uma breve análise do grupo de dissidentes judeus que escreveram os famosos rolos do Mar Morto. Evidencia-se aqui que rituais tidos como tipicamente cristãos eram comuns entre outros dissidentes do judaísmo já antes do surgimento do cristianismo, tais como o isolamento do mundo, a adesão voluntária à nova fé, em vez de baseada no nascimento, a exaltação da pobreza, refeições noturnas e o desencorajamento do casamento, visto estar nos "últimos dias".

Com isto Donini pretende demonstrar que o cristianismo como o conhecemos não é de forma alguma um elemento estranho. Seu tempo e seu local já continham fermentos favoráveis ao surgimento de mais uma facção judaica.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:44

[CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO I]

A COMUNIDADE DA NOVA ALIANÇA

Todos estes movimentos confluem e articulam-se de uma maneira exemplar, na fronteira entre a era antiga e a era cristã, nos manuscritos dos dissidentes judaicos do Mar Morto, que tinham edificado a sua vida comunitária precisamente nas margens daquela desolada estagnação, onde a própria natureza parece morrer. O seu “Mestre da Justiça”, isto é, justo, perseguido e talvez crucificado, é uma prefiguração de Cristo.

É certo que o suplício de Cristo não é assinalado senão de uma foram simulada, mas isso não deve ser motivo de surpresa. A exaltação da cruz, como instrumento de tortura e ao mesmo tempo de glória, não podia surgir senão fora da Palestina, entre os hebreus da emigração, onde desde há séculos tal ignominiosa forma de punição era identificada com a condição subalterna dos escravos e dos rebeldes. Pense-se nas crucificações em massa que puseram termo à revolta de Espártaco, em 71 a.C., após a sua derrota por Licínio Crasso, no extermínio dos marinheiros sobreviventes da frota corsária de Sexto Pompeu, ou na vaidade de Augusto, por ter reentregue aos seus patrões, para lhes aplicarem a pena capital da execução na cruz, mais de seis mil escravos fugitivos, que tinham aproveitado a confusão da guerra civil para procurarem a liberdade.

Na Palestina também tinha havido crucificações, durante a revolta macabaica, com Antíoco IV Epifânio, depois com os Asmonianos e com Herodes e na época da ocupação romana; no entanto, tinham sido usadas como arma de intimidação nos confrontos dos próprios estratos mais superiores, refractários ao governo de soberanos paganizantes, ou como represália por actos de insurreição aberta. Em Roma e nas regiões da “diáspora”, pelo contrário, tinham um carácter nítido de classe: a condenação à morte na cruz era severamente proibida quando o delito, ainda que muito grave, tivesse sido praticado por um homem livre em geral.

Num dos textos hebraicos do Mar Morto, encontramos o eco da indignação entre o povo por este tipo de suplício estranho à tradição judaica.

Num dos textos fragmentários encontrados na gruta do Qumràn, denuncia-se iradamente um “leão furioso” que “pendura homens vivos [...] o que antes não acontecia em Israel” (Comentário a Nahum, 5-8 ): segundo a maioria dos intérpretes, a alusão é feita ao rei Alexandre Janeu, filho de João Hircano, que um século antes de Cristo mandara crucificar 800 fariseus e degolar, na frente destes, as mulheres e os filhos.

Encontramo-nos ainda no campo das lutas internas entre as diversas facções judaicas. Temos, contudo, provas suficientes, na literatura apocalíptica e apócrifa, que circulava entre os comunitários do Qumràn, para podermos chegar à conclusão de que, com a perda da independência nacional, as “forças do mal” eram cada vez mais identificadas com os sucessivos dominadores estrangeiros do país: os assírio-babilónios, os persas, os macedónios, por vezes os egípcios, os sírios de Antíoco IV e de Demétrio III Eucário, os pretorianos idumeus de Herodes e, por fim, os romanos, que nos manuscritos do Mar Morto são denunciados, por precaução natural, sob a designação bíblica de Kittim. Esta última equivalência histórica encontra-se hoje em dia demonstrada para além de qualquer dúvida.

O chamado pergaminho da Guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas antecipa, em termos de pura fantasia, aquela que viria a ser depois a infeliz guerra real de 66-73 d.C. contra os romanos, a qual marcará ao mesmo tempo o fim da comunidade: na sua ingénua segurança, estes visionários, normalmente identificados com os “essénios”, mas na realidade mais próximos dos primeiros núcleos de tipo cristão, tinham confiado, para a derrota dos invasores romanos, nas forças militarmente invencíveis do Deus da nação, “Javé dos exércitos”, o senhor Sabaoth. A sua desilusão deve ter sido agudíssima, admitindo que alguns pequenos grupos tenham conseguido sobreviver, longe agora da sua terra de origem, irremediavelmente abandonada.

As práticas rituais quer marcavam os momentos relevantes da sua vida em comum são idênticas às das primeiras associações cristãs: a purificação baptismal pela água, a confissão pública das faltas, a distribuição do pão e do vinho no decurso da refeição eucarística, como prefiguração do reino messiânico. O mesmo se pode dizer no respeitante às suas formas de organização: o isolamento desdenhoso em relação ao resto da população, a adesão voluntária à nova fé, já não ligada ao nascimento ou à condição social, a exaltação da pobreza e ao trabalho agrícola e artesanal, a criação de um fundo colectivo para atender às necessidades de cada dia, uma vida familiar severa e, nalguns casos, o celibato, que ainda não se deve a considerações ascéticas ou ao chamado “horror da carne”, mas à necessidade de se sentirem mais livres para o serviço divino e para a participação nas duras provas do drama final iminente, como para os “virgens” do Apocalipse (XIV, 4). Nos sermões e na liturgia que comemoram o sacrifício do seu fundador, o seu nome real nunca é mencionado, porque não é a sua figura terrena que conta, mas a sua qualidade de precursor do reino, como S. João Baptista quando se refere a Jesus.

O povo hebraico respeitava escrupulosamente todas as prescrições e tabus da velha lei de Moisés, tal como os “fariseus”, contra os quais se dirigirá mais tarde a violenta condenação dos evangelistas; não se deve esquecer todavia que as comunidades cristãs mais antigas da Palestina, conhecidas sob a denominação de ebionitas (“os pobres”) não se comportavam de maneira diferente. Observavam o descanso absoluto de sábado, o dia reservado a Javé, e celebravam as mais importantes solenidades judaicas segundo um cálculo que já não era o gerosolimitano; aproximava-se do calendário cristão, com uma combinação dos ciclos da lua com o percurso solar. Gostavam de ser definidas como os “filhos de Sadoc”, do nome do grande sacerdote bíblico, sendo também referidos como “saduceus”; trata-se aqui de uma contraposição polémica, porque o verdadeiro sacerdote, para eles, não é o que sacrifica os animais no Templo, mas o que assiste ao culto em espírito e verdade, como pretendem os primeiros sequazes de Cristo.

O elemento decisivo, contudo, é dado pela consciência de que, quando se começa a fazer parte do grupo, adere-se a uma sociedade religiosa profundamente diferente da tradicional, a uma “nova aliança”: por outras palavras, segundo a tradução latina do termo hebraico bèrith (“aliança”), através do grego diathéke (“pacto”, que também significa “acto testamentário”), à comunidade do “Novo Testamento”.

Confiando na intervenção divina, para fazer triunfar a sua causa, os messianistas do Qumràn prepararam-se para a luta armada. O seu ideal era ainda e sempre a instauração de uma nova monarquia, a forma superior de organização estatal a que chegara a civilização do mundo antigo e aquela por que ansiavam também as classes subalternas, incapazes de uma afirmação autónoma. A questão do poder não se punha ainda como negação do sistema social prevalecente, mas como escolha de um “reino” sobrenatural, que agisse a favor das classes menos abastadas, tal como no cristianismo primitivo.

O desaparecimento deste grupo coincide com o nascimento das comunidades cristãs.

Na literatura saída das grutas do Qumràn, encontravam-se centenas e centenas de passos comuns aos nossos Evangelhos e aos outros escritos neotestamentários. Mas a mediação entre as duas experiências religiosas, que é um facto incontroverso, não foi tarefa fácil, porque foi levada a cabo a uma certa distância daqueles acontecimentos, na base de dados extremamente confusos, numa língua diferente da original, que dava uma ressonância nova, nos países de emigração, às ideias de que se tinham feito intérpretes os vencidos do Mar Morto.


[CONTINUA]
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:44

Finalmente postarei abaixo o último subtítulo do primeiro capítulo do livro, onde Donini faz um arremate do que escreveu até agora. Relembra-nos sobre a origem dos evangelhos, produzidos por hebreus da diáspora, pouco familiarizados com a Palestina e com o judaísmo original, a não ser por alguns pontos em comum.

Uma informação nova e interessante: o "Javé dos exércitos" é confundido, por semelhança lexical, com um deus dos mistérios da Ásia Menor.

Vale ressaltar também que o "logos" de que fala João no prólogo de seu evangelho tem origem na tradição de não se falar o nome sagrado, e na diáspora acabou adquirindo significados platônicos e estóicos.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:45

[CONCLUSÃO DO CAPÍTULO I]

AS ORIGENS REAIS DO CRISTIANISMO

Se na Palestina o judaísmo se tinha então tornado, sobretudo a nível popular, algo de bem diferente do dos patriarcas, dos reis e dos profetas, não eram menos sensíveis os condicionamentos aos quais os hebreus se tinham visto expostos na “diáspora”, do século VI a.C. em diante.

As raízes históricas desta dispersão, sem a qual o cristianismo não teria existido ou teria tido limites e características de todo impensáveis, são perfeitamente claras.

A dispersão teve o seu início com a deportação de algumas dezenas de milhar de pessoas notáveis e de artesãos hebreus – os camponeses tinham sido deixados no país a trabalhar a terra para os novos patrões – primeiramente para a Mesompotâmia, após Jerusalém ter caído nas mãos de Nabucodonosor em 586 a.C., depois para a Ásia Menor e para a Síria, na altura das guerras de Antíoco IV Epifânio, para a Grécia e para as cidades costeiras do Mediterrâneo, inclusive Roma. Os hebreus constituíam então aí uma parte relevante do proletariado urbano, do artesanato e do comércio, que também era considerado como um “trabalho” e, como tal, indigno de um homem livre. Alguns encontraram ocupação como soldados. Muitos foram reduzidos à escravidão, mas parece tratar-se em geral de uma excepção, pelo menos no sentido técnico de condição servil, privada de todas as liberdades e de toda a autonomia econômica e familiar.

No quadro do império romano, gozavam ainda de certas prerrogativas; mas o ideal teocrático, em virtude do qual a comunidade religiosa tendia a identificar-se com o Estado, não se podia realizar senão muito debilmente.

Do ponto de vista social e ideológico, tinham perdido muito da sua homogeneidade, até porque as oposições de classe começavam então a manifestar-se, sem o freio da lei de Moisés, que operava na Palestina. Porém, os ensinamentos bíblicos tinham-se conservado, de um modo geral, bastante puros. Salvo casos excepcionais – por exemplo, a confusão entre o Deus traciofrígio dos mistérios Sabázio e Javé Sabaoth, senhor “dos exércitos”, que deu origem à curiosa seita sincretista dos sabatinos, entre as comunidades judaicas da Ásia Menor – os cultos helenísticos de salvação não tinham conseguido libertar o hebraísmo oficial da emigração daqueles aspectos de intransigência e de isolamento que produzirão um contraste com as primeiras igrejas cristãs.

O Messias, visto de longe, tinha perdido muitas das suas conotações de libertador dinástico e militar, sobretudo depois de falhar a tentativa de restauração por parte de Herodes. O respeito absoluto que a “Lei” merecia, contribuía para proteger estes emigrados do perigo de se verem enredados no enorme novelo de gentes e de civilizações em que se tornara o império romano. Na sua maioria, poucos queriam renunciar aos seus costumes e aos seus tabus rituais: a circuncisão, a recusa das carnes de animais abatidos sem lhes terem retirado escrupulosamente todo o sangue, a observância dos sábados, o envio de grandes tributos em dinheiro para o Templo de Jerusalém. Contudo, nos bairros mais pobres da cidade da “diáspora”, esta fé e este apego a práticas frequentemente incómodas, que eram fonte de escárnio por parte dos vizinhos e companheiros de trabalho, começavam a diminuir.

Daí também a utilização indiscriminada da literatura apócrifa popular, traduzida para grego, juntamente com a Bíblia e não apenas com fins proselitistas.

A leitura dos Oráculos sibilinos, de comprovada inspiração judaica, difundidos em hexámetros de tipo homérico em Alexandria (do Egipto), carregados de ódio anti-romano, é extremamente instrutiva. Deve dizer-se, todavia, que estes escritos quase não deixaram vestígios na sociedade greco-romana, o que nos deve fazer reflectir sobre a pouca permeabilidade que ainda existia então entre a cultura dominante e as culturas subalternas. Neste vazio pôde, pelo contrário, inserir-se a pregação dos primeiros cristãos, que respondia a muitas das exigências das massas hebraicas mais pobres e mais discriminadas.

Em Alexandria (do Egipto), além disso, uma série de exegetas e teólogos judaicos esforçaram-se por traduzir o conceito de uma única e inacessível divindade em termos de filosofia platónica e estóica, mais próximas do princípio de uma abstracta “racionalidade” transcendente. Expressões como o “nome”, a “palavra”, a “sabedoria”, a “mente” de Deus, que na tradição bíblica respondiam apenas à exigência de evitar a pronúncia do nome de Javé, e como tal se encontram também nos manuscritos do Mar Morto, tornar-se-ão em Fílon, o “logos”, o “verbo”, a razão divina, intermediária entre o criador e a criatura. E este será um instrumento ideal, para chegar à divinização do velho Messias de Israel: a palavra feita carne, como no prólogo ao Evangelho de S. João, que saiu desse mesmo ambiente.

No início da nossa era, numa população do império que se calcula na ordem dos 65-70 milhões – dos quais apenas quatro, segundo os recenseamentos ordenados por Augusto, eram cidadãos romanos e, por conseguinte, livres de direito – os hebreus eram sete milhões. Um habitante em cada dez era hebreu; no oriente helenístico, a proporção chegava a ser de um para cinco. Na emigração, no seu total, os hebreus atingiram o número considerável de cinco milhões. Três elementos fundamentais mantinham-nos unidos: a fé monoteísta, a sinagoga e o sábado. Na questão do futuro Messias, pelo contrário, encontravam-se divididos. A concepção de um “reino” de tipo campesino, patriarcal, desorganizado, expressão do contraste entre campo e cidade, revelava-se já inadequado para a resolução dos seus maiores problemas.

Os livros do Novo Testamento são o espelho desta situação.

Aí, tudo resulta deformado, no que diz respeito às condições reais da Palestina, a sua pátria longínqua.

A espiritualização do “messianismo” e, portanto, do nascimento do cristianismo, pois os dois termos são equivalentes, não se podia realizar senão na emigração. O facto de a língua dos primeiros Evangelhos ter sido o grego, e não o hebraico, vai portanto mais além do que a pura constatação filológica: é um dado essencial, que oferece uma base sólida para a solução de todo o problema das origens cristãs.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:45

A coisa esquenta no capítulo 2, quando Donini tratará exclusivamente de "Jesus na Primitiva Tradição Evangélica". Tem muito mais coisa que ele traz à tona. Veja quais os próximos assuntos que postarei aqui, e que fazem parte do segundo capítulo como subtítulos:

* Jesus na tradução eslava de Flávio Josefo;

* O "testemunho flaviano";

* Evangelhos canônicos e evangelhos apócrifos;

* O "evangelho" de Jesus;

* Nazaré ou Belém?;

* A data do Natal;

* A família de Jesus;

* O "reino de Deus";

* As morais do evangelho;

* Morte e ressurreição.
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Re: Estudo das Incoerências Históricas do Cristianismo

Nova mensagempor Jerry em 06 Nov 2008 09:46

No começo do segundo capítulo, transcrito abaixo, Donini centra sua atenção na polêmica de supostos testemunhos históricos não-cristãos acerca da existência de Jesus. O historiador foca principalmente em Flávio Josefo, muito utilizado para se "provar" a historicidade de Jesus. Entretanto, em sua análise, Donini demonstra que houve alterações posteriores nos escritos de Josefo. Ademais, evidencia ainda que o próprio Flávio Josefo não poderia ter escrito sobre o Messias Jesus simplesmente porque para ele o messias era um imperador romano, Vespasiano!

Observem que no decorrer da transcrição aparecem os excertos supostamente atribuídos a Flávio Josefo.

Outro ponto: em alguns momentos a concordância do texto está comprometida. Não foi falha minha, mas da própria editora.
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