Crítica a RAYMOND FRANZ : Crenças, Doutrinas e História
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Crítica a RAYMOND FRANZ

Debates e discussões acerca das crenças, doutrinas e a história das Testemunhas de Jeová.

Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor mayhra em 11 Dez 2017 15:26

Boa tarde a todos,

Estou lendo o livro Crise de Consciência, de autoria de RAYMOND FRANZ, ex-membro do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová. O livro, como muitos já sabem, é excelente, muito bem escrito e extremamente esclarecedor de muitos assuntos.

Mas, como Raymond Franz é ser humano como qualquer um de nós, embora já falecido, penso que podemos discutir o seu trabalho com respeito e com liberdade, sem problema algum. Quer dizer, não precisamos ter receio de criticar algum aspecto da sua obra, desde que isso seja feito com inteligência e educação, e é isso que farei agora, sobre uma coisa que me chamou a atenção.

A partir da página 318 do livro até a pagina 432, Ray relata como a organização das Testemunhas de Jeová lida com DÚVIDAS a respeito de seus ensinos. Dentro do Corpo Governante as dúvidas são permitidas, mas qualquer alteração doutrinal deve receber a aprovação de, no mínimo, 2/3 dos membros, os quais erguem o braço aprovando a moção. PORÉM, fora do Corpo Governante nunca foi permitido aos irmãos manifestarem dúvidas ou acreditarem em outra coisa que não seja a expressa "verdade" escrita em A Sentinela e outras publicações. A Testemunha de Jeová comum, portanto a imensa grande maioria delas, não tem margem para manter dúvidas, a sua adesão aos ensinos deve ser total e qualquer indício de não-adesão rapidamente é interpretada como fraqueza na fé e, se a pessoa insistir com a dúvida, como apostaria ou heresia contra Jeová e Jesus Cristo, passível de expulsão ou desassociação compulsória, forçosa e desonrosa.

Depois Ray fala das comissões judicativas e do quanto seu proceder é semelhante à INQUISIÇÃO Católica de séculos passados e também com o Sinédrio do primeiro século. Nesses tribunais de exceção hodiernos das Testemunhas de Jeová, o julgamento ocorre às escondidas, nem mesmo familiares podem acompanhar o andamento. O acusado permanece sozinho, isolado, e sofrendo interrogatório de vários homens contra um. O acusado não tem direito à defesa, pois normalmente sequer sabe do que está sendo acusado e quem o acusa. Não bastasse, a postura dos julgadores é a de procurar indícios de culpabilidade, é a de buscar qualquer evidência de que o acusado é realmente culpado. Então, não presumem que o acusado é inocente até que se prove o contrário. Ao contrário disso, presumem que é culpado até que se prove inocente. Quais as chances do acusado de se defender a contento nessas condições de "todos" contra um e ainda querendo "ferrá-lo" diante da menor escorregadela (principalmente se a acusação é a de apostasia).

Pois bem, Raymond Franz descreve de forma muito vívida e correta essa situação toda. CONTUDO, a minha dúvida é a seguinte: Ray serviu como Testemunha de Jeová por cerca de 60 anos, não sei exatamente quantos anos na qualidade de ancião e de Servo ou Superintendente. O certo é o próprio Raymond Franz deve ter participado de inúmeras comissões judicativas das Testemunhas de Jeová. Então, na verdade quando ele descreve tão bem o esquema todo de duro controle dos irmãos e de punição sem misericórdia através da desassociação dos "rebeldes", ele descreve exatamente aquilo do qual ele participou.

Então eu pensei: "Puxa, o cara faz o mesmo por dezenas de anos e agora, ao escrever esse livro, se mostra muito surpreso com a coisa toda".

— O que vocês acham disso?
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor Lehh em 11 Dez 2017 15:59

Muito boa a sua observação.

Eu penso que muitos de nós (eu me incluo) quando tj que acreditava em tudo aquilo, não questionava, agia assim sem sequer se dar conta.

Comentei recentemente com um amigo que, na adolescência, quando eu via algum jovem tj fazer algo considerado "errado", qualquer bobeira de criança, eu sentia uma espécie de rancor e desejava que a pessoa fosse descoberta, pagasse duramente por aquilo que estava fazendo. Inclusive, cheguei a contar para um ancião sobre o comportamento de uma pessoa certa vez.

Eu me arrependo disso, sinto vergonha. Hoje, com a visão que eu tenho, fico surpresa com o meu comportamento no passado e com o comportamento das tjs, como são ensinadas. A teoria da Banalidade do Mal da filosofa Hannah Arendt, nos faz refletir sobre esse comportamento.

Quando o mal se torna banal, esse é o tipo de comportamento das pessoas.
As tjs também praticam o mal sem se dar conta, de forma "normal", pois são ensinados assim, é de costume deles, acham que estão fazendo o correto, o que deve ser feito.
Se a pessoa começar a refletir e se der conta, pode se surpreender consigo e com os outros.

Na minha opinião, é elogiável que o Franz tenha tido coragem de assumir isso, pois não é qualquer pessoa que teria coragem de assumir e se surpreender com os erros cometidos por ele e pela instituição a que serviu por tantos anos.


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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor Nobre Endividada em 11 Dez 2017 17:27

Não lembro em que parte do livro ( depois procuro rs ) , Raymond confessa que muito provavelmente não teria chegado a todas essas conclusões se estivesse continuado no serviço missionário, que era a vontade dele inclusive. Todo o seu despertar começou servindo na sede, ele menciona que levantava questionamento em tudo que ia vivenciando por lá, seja por ter acesso a material confidencial, seja por observar a atitude decepcionante de pessoas que ele considerava como exemplares "servidores". Na época em que era missionário, ele estava na mesma teia de manipulação que maioria dos TJs, ele amava a organização e por tanta dedicação e ocupação no serviço, não se atentava a certos detalhes ou questões que sustentavam dúvidas; se por acaso ele descordasse de algo nessa época, por sua fé e confiança na organização como um meio usado por Cristo, ele esperava que ajustes fossem feitos, ou se havia dúvida bíblica sobre algum ensino do escravo, ele poderia ficar na expectativa de que um dia houvesse mais esclarecimento. Essa é praticamente a posição da maioria das TJs dedicadas... estou sugerindo que é provável que ele pensasse assim.
Por fim, pode ser que antes ele tenha tido algumas dúvidas, mas passar por todas essas experiencia que ele descreve no livro, fez com que ele definitivamente parace e pensasse , ainda mais quando foi encarregado de escrever o dicionário bíblico Ajuda ao entendimento da Bíblia. Creio que apesar de tudo ele tenha tentado colaborar para que houvesse pelo menos o começo de algumas mudanças positivas, por amor que ele tinha ao "serviço do reino". Mas como sabemos , não foi isso que aconteceu... e estando ele definitivamente fora, se aprofundou em todas essas questões, chutou o pau da barraca, escreveu esse excelente livro e desceu o cacete nos babacas do Corpo Governante.
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor Galileu em 11 Dez 2017 19:15

É de fato , iludiu assim como foi iludido.

O nobre em sua atitude é a de reconhecer isso e sair da Seita a um custo muito alto para si mesmo.

Sabemos bem os sofrimentos envolvidos em sair desta multinacional, mesmo para aqueles que não tem tanta visibilidade como RAY teve.
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor TJCalado em 11 Dez 2017 19:40

Não posso afirmar que o que vou comentar foi o caso dele...

As TJs sinceras acreditam realmente que estão a serviço de Deus. Anciãos igualmente sinceros creem que são instrumentos de Jeová nas congregações. Para esses, seus julgamentos, mesmo que duros, são resultado da disciplina de Deus. Eles recebem "instrução divina".
Ao chegar ao topo da pirâmide, Raymond pode ter percebido que as coisas não eram como ele pensava. Ele viu pessoalmente como as decisões eram tomadas, como eram definidas as diretrizes da organização. Ele conheceu pessoalmente aqueles que ele seguia fielmente. Ele passou a ter uma certeza muito maior que a nossa de que a Torre de Vigia não é a organização de Deus.
Como os seus livros mostram, ele reuniu muitas informações específicas e detalhadas sobre o funcionamento do cirpo governante. Talvez esse tenha sido o motivo de se manter um tempo por lá.

É isso, ou então ele é um crápula que aproveitou as regalias que tinha no tempo em que estava dentro, e só começou a falar mal da Torre de vigia porque foi expulso dela. Mas desobedecer uma ordem de ter contato com um desassociado não parece ser esperado de alguém que estava gostando da situação que vivia dentro da cúpula.
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor mayhra em 11 Dez 2017 20:17

Lehh, Nobre Endividada e Galileu, concordo com vocês, deve ter sido isso mesmo. Ele só acordou quando foi confrontado com a realidade do convívio com a cúpula, incluso o Corpo Governante. E, realmente, ele diz isso, pois fala das diversas situações que foram fazendo ele acordar. Lembro de uma: ele viveu por anos como um pioneiro na penúria, passando frio e às vezes até fome. Daí ele é convidado a morar no Betel de Brooklyn e lá percebe que tem todo conforto para viver e até mesmo regalias como passagens de avião num estalar de dedos. Esse já é um contraste muito grande.

TJCalado, confesso que cheguei a pensar que Raymond Franz poderia não ser uma pessoa tão inocente como ele parece ser no livro, mas pensando melhor e lembrando que eu mesma já fui TJ e também cheguei a acreditar na seita, dá para entender que ele só acordou quando foi para Brooklyn conviver com os "príncipes", foi ali que o choque de realidade veio.
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor TJ RENOVADO em 11 Dez 2017 21:02

Então eu pensei: "Puxa, o cara faz o mesmo por dezenas de anos e agora, ao escrever esse livro, se mostra muito surpreso com a coisa toda".


Pois é...
Eu fico bobo em como acreditei em certas coisas tão absurdas. Mesmo quando surgiam certas dúvidas, voltávamos à premissa máxima de que estávamos na religião verdadeira e logo a dúvida iria para a gaveta.
Mas quando se está fora da ilha é que enxergamos tudo sob outra perspectiva. De dentro não é tão fácil. E muita gente sabe aqui o quão difícil é despertar um parente ou amigo - é de se arrancar os cabelos como parecem estar cegos e obtusos no ouvir.
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor Cappuccina em 12 Dez 2017 11:46

É, o livro dele se trata de uma crise de consciência que deve ter chegado um tanto tarde. Antes disso, ele acreditava fazer o certo. Eu mesmo fui uma pessoa horrível quando acreditava nessas coisas, como escrevi no.meu texto "Casinha".

Agora, vamo combinar, inocente como descrito no livro Franz não era. Até porque ele foi membro do Corpo Governante, eles sabem bem o que fazem, sabem quando mentem ou não Sim, ele voltou atrás e enxergou falhas graves e foi livre. Mas sim, os relatos dele tem uma pinta de inocência exarcebada, porém é só saber filtrar.
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor Ermioni em 12 Dez 2017 18:06

Eu MSM sendo TJ cheguei a me questionar o valor da desassociação. Todos nós sabemos que a maioria das pessoa voltam por causa da família, dos amigos que viram a cara.
Um fato a ser notado é que eu no Fundinho sentia o dever e o prazer de durar certas pessoas e queria MSM q a pessoa pagasse o preço. Por queimar o nome de Jeová, essas pessoa deveria sim ser punida.
Aff que ser idiota eu era.
Mas hoje, de fora, eu consigo ver tudo. Porém qd se está dentro do quadro, não se nota o quão torto ele está.
Mas eu sei que sim, existe pessoas que torcem p outra ser desassociada, tornem pela punição, não por manter um nome limpo p Jeová,mas p ver a pessoa se ferrar MSM.
Após um tempo que eu já estava fora da torre, refiz amigos, mudei todos os meus contatos. E MSM assim um irmão foi contar sobre a minha vida fora da torre. Inventou um monte de coisas que eu nem fiz e nem iria fazer, contou coisas que eu já estava fazendo e feito. Sim, um amigo que veio saber da minha vida inteira pós torre. E foi lá contar tudo p anciãos. Qual o motivo? Ninguém não sabia que eu já tinha sido TJ.
Segundo meu amigo, eu merecia sim ser julgada, eu merecia a punição.
Então, há casos é mais casos.
Não posso classificar o caso do Franz, só sei que há essas duas situações sim. Mas prefiro acreditar q ele era inocente devido a sua crença.
Nunca saberá quem realmente são as pessoas, se vc nunca for vc mesmo.
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Re: Crítica a RAYMOND FRANZ

Nova mensagempor Ronildo Araujo em 14 Dez 2017 16:37

Eu achei Raymond Franz bem verdadeiro no relato. Não sei porque se está usando a palavra inocente nos comentários. Ele relata detalhadamente muitas situações. Inclusive o desgaste natural que ele gradualmente foi tendo perante os outros devido a sua insistência em respeitar a consciência alheia e que se atessem mais à Biblia ao invés de ficar citando publicações passadas. Todos conhecem o ditado de que para conhecer uma pessoa deve-se dar poder para ela. O fato dele ter ido contra o sistema que lhe proporcionava diversas regalias à idade de 60 anos deve ser um grande indício ou até mesmo uma prova de que tipo de pessoa ele era. Mas ele não falou tudo evidentemente. Por exemplo, sempre foi curiosidade das TJs que achavam que tinham esperança terrestre qual era realmente o sentimento ou força, impulso, sei lá, que um "ungido" tem para decidir que deve tomar os emblemas. Eu esperava que ele falasse disto! O que ele diria? Era como se estivesse possuído? Era apenas um sentimento de que o indivíduo também achava que merecia! Neste caso não haveria milagre nenhum como a Torre propaga. O fato dele falar deve ser porque causava vergonha à ele. Vergonha depois que ele saiu da organização, claro! Me refiro ao fato dos "ungidos" realmente serem uma classe à parte e "superior" comparado-os com as "outras ovelhas". Este interesse em saber destas coisas naturalmente se desfaz quando percebemos que tal organização não é de Deus.
A base do Cristianismo verdadeiro, aprovado por Cristo, é o amor de Deus.
A vida e a morte de Jesus Cristo é a confirmação deste amor.
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