2 Coríntios 12:2-4: O 3º Céu do Apóstolo Paulo : Crenças, Doutrinas e História
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2 Coríntios 12:2-4: O 3º Céu do Apóstolo Paulo

Debates e discussões acerca das crenças, doutrinas e a história das Testemunhas de Jeová.

2 Coríntios 12:2-4: O 3º Céu do Apóstolo Paulo

Nova mensagempor Épiro em 29 Jan 2014 13:43

O 3º Céu do Apóstolo Paulo:

2 Coríntios 12:2-4 Nova Versão Internacional (NVI-PT)

2 Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu. Se foi no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe. 3 E sei que esse homem — se no corpo ou fora do corpo, não sei, mas Deus o sabe — 4 foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é permitido falar.


O conceito de que existem vários níveis de “céus” não seria estranho para os Judeus do 1º século EC. Alguns sectos judaicos, principalmente os fariseus e os essênios, imaginavam que os céus eram divididos em 7 partes. Esta doutrina foi substancialmente fundamentada no 2º Livro de Enoque.

Os livros de Enoque fazem parte de uma gama de literatura desenvolvida no Judaísmo do Segundo Tempo (após 515 AEC). Esse tipo de literatura é conhecida como “Literatura Apocalíptica Judaica”. Trechos deste tipo de literatura foram incorporados à outros textos mais antigos, dando a impressão que os antigos profetas previram os eventos futuros. Exemplos disso são os capítulos 25-27 do livro de Isaías, Cap. 38-39 do livro de Ezequiel, Cap. 12-14 de Zacarias, todo o livro de Daniel, etc..

As primeiras partes do 2º livro de Enoque foram compostas durante 1º século AEC. Neste livro, dois anjos levam Enoque da terra para visitar cada um dos 7 céus, onde ele descreve as maravilhas e os seres encontrados em cada lugar. Basicamente cada céu tem uma função e é descrita a seguir:

-1º céu: Anjos controlam os fenômenos atmosféricos;
-2º céu: É a prisão dos anjos que se rebelaram contra Deus;
-3º céu: Encontra-se o paraíso (compare com 2 Coríntios 12:2-4) e o inferno, para os humanos;
-4º céu: É o lugar onde o Sol e a Lua se movimentam;
-5º céu: O lugar onde Enoque encontra um “Grigori” (anjo Vigilante).
-6º céu: O lugar de habitação dos anjos;
-7º céu: Mais alto lugar, a habitação do Senhor. Onde se encontra o “Trono de Deus”;

O Apóstolo Paulo afirma que o 3º céu é onde se encontra o “paraiso”. Compare com o que é descrito em 2 Enoque:

2 Enoque Capítulo 8 – Tradução do Inglês*

1 E aqueles homens me tiraram dali, e levaram-me até ao terceiro céu, e me colocaram lá, e eu olhei para baixo e vi o produto desses lugares, como nunca foi conhecido por bondade.
2 E vi todas as árvores de doce floração e vi seus frutos, que eram de cheiro doce, e todos os alimentos produzidos (por eles) borbulhando com fragrante exalação.
3 E no meio das árvores da vida, no lugar em que o Senhor repousa, quando ele vai ao paraíso, e esta árvore é de inefável bondade e fragrância, e adornada mais do que tudo o que existe, e em todos os lados (ela é) em forma de aparência de ouro e vermelhão e como o fogo e cobre tudo, e tem produção de todos os frutos.
4 Sua raiz está no jardim no fim do mundo.
5 E o paraíso é entre corruptibilidade e a incorruptibilidade.

*Tradução do texto de W. R. Morfill: The Book of the Secrets of Enoch, 1896.


O livro de 2º Enoque afirma que o paraíso, o Jardim do Eden, onde se encontrava a “árvore da vida” encontrava-se no terceiro céu. Isto é similar ao pensamento do Apóstolo Paulo na carta aos Coríntios, onde afirma que durante sua experiência sobrenatural (pois é subintendido que é o próprio Apóstolo que fora “arrebatado” há 14 anos) ele visitara o paraíso, lugar onde “ouviu coisas indizíveis”.

O Apóstolo ao declarar que ele mesmo visitara o paraíso coloca-o em uma posição proeminente frente aos seus correligionários, em uma posição de destaque similar à Enoque e a Elias, profetas antigos que também foram erguidos aos “céus”.

Outro livro da literatura Apocalíptica Judaica que também cita o 3º céu é o livro de “Apocalipse de Moisés”. Suas origens já foram mencionadas neste tópico: viewtopic.php?f=20&t=14510&st=0&sk=t&sd=a&hilit=a+mentira+original&start=20#p287939

O livro narra a história da expulsão de Adão e Eva do paraíso. No texto, após a morte de Adão, Deus tem misericórdia dele e autoriza o arcanjo Miguel a levar Adão até o 3º céu:

Apocalipse de Moises 37*

4 E ele ficou lá três horas, deitado, e, posteriormente, o Pai de todos, sentado em seu trono sagrado estendeu a sua mão, e tomou Adão e entregou-o para o arcanjo Miguel dizendo: "Levante-o ao Paraíso até o terceiro Céu, e deixe-o lá até aquele tenebroso dia de acerto de contas, em que eu vou fazer no mundo. 'Em seguida, Miguel levou Adão e deixou-o
6- onde Deus disse a ele.
*Tradução do texto de R.H. Charles “The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament” Oxford: The Clarendon Press, 1913. http://www.pseudepigrapha.com/pseudepig ... pcmose.htm


Mais uma vez, os 7 céus descritos no livro de Enoque são mencionados em contexto. Antes da vinda do Arcanjo Miguel, Eva e seu filho Sete oravam à Deus pela alma de Adão. Nisto eles tem uma visão dos céus se abrindo, expondo todos os 7 céus:

Apocalipse de Moises 35*

1 Então Sete levantou-se e veio até a sua mãe e à ela ele diz: 'Qual é o teu problema? Por que choras? "(E), ela diz a ele: "Olha
2 para cima e veja com os teus olhos os sete céus abertos, e veja como a alma do teu pai encontra-se em seu rosto e todos os santos anjos estão orando em seu nome e dizendo: "Perdoe-o, Pai de todos, pois ele é a Tua imagem '". Ore, meu filho


O fato do Apóstolo Paulo ter mencionado o “terceiro céu” em sua carta aos Coríntios é uma prova indireta que os leitores da carta já tinham conhecimento sobre este material. Caso as pessoas pertencentes à esta congregação não tivessem acesso à textos judaicos onde fossem citados os vários níveis de céus, quer seja através dos livros de Enoque ou de outros textos pseusoepígrafos, não entenderiam a mensagem do Apóstolo.

Origem dos 7 céus

De onde o Judaísmo concebeu este conceito? Na Torá, não é menciona a separação dos céus especificamente em sete camadas, porém o texto de Genesis 1:1 evidencia que este povo já tinha uma concepção de que o céu era “dividido”.

Genesis 1:1 No princípio Deus criou os céus e a terra. .


“Os céus”, Hebraico transliterado: “Há-Shamayim” está no plural. Neste texto o autor não especifica a “quantidade” de céus ao qual se refere.

Possivelmente este conceito foi inicialmente elaborado pelos Sumérios, e em última instância incorporado e desenvolvido em sua grande forma através da cosmologia babilônica. Os babilônios eram grandes astrônomos, tinham grande conhecimento dos movimentos dos astros e estrelas (como algumas pessoas puderam notar ao ler o livro “Tempo dos Gentios Reconsiderados”, Carl Olof Johnsson).

Os babilônios acreditavam que o universo era dividido em 7 esferas, a qual a terra ficava no meio. Os semicírculos superiores eram conhecidos como “Os 7 céus” e os semicírculos inferiores eram os “7 infernos”. Cada uma das 7 esferas eram regidas por uma divindade, representada pelos 7 astros conhecidos até aquela época (Mercúrio, Vênus, Lua, Sol, Marte, Júpiter e Saturno).

1ª Esfera (1º céu): Regido pelo deus Sin (Lua).
2ª Esfera (2º céu): Regido pelo deus Shamash (Sol).
3ª Esfera (3º céu): Regido pelo deus Nebo (Mercúrio).
4ª Esfera (4º céu): Regido pela deusa Ishtar (Vênus)
5ª Esfera (5º céu): Regido pelo deus Nergal (Marte).
6ª Esfera (6º céu): Regido pelo deus Marduque (Júpter).
7ª Esfera (7º céu): Regido pelo deus Ninibe/Ninurta (Saturno).

Representação do Universo, segundo a cosmologia Babilônica. (The Book of Earths by Edna Kenton, 1928)
Imagem

Não há dúvidas que a cosmologia Babilônica influenciou a visão de mundo dos judeus no pós-exílio. Uma prova disso é que até hoje os Judeus utilizam o Calendário Babilônico em seu uso litúrgico.

Concluindo, a visão de mundo, de funcionamento do Universo e até mesmo da localização do “Reino dos Céus” deriva-se grandemente à contribuição que outras civilizações fizeram à cultura Judaica. Somente estudando as relações entre estes povos poderemos tentar compreender o contexto em que os textos bíblicos foram redigidos.

Fontes Bibliográficas:

-Kenton, Edna: The Book of Earths by Edna Kenton , 1928
-R.H. Charles: The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament Oxford: The Clarendon Press, 1913
-Wolfgang Haase, Hildegard Temporini, Walter de Gruyter : Aufstieg und Niedergang der römischen Welt: Geschichte und Kultur Roms im Spiegel der neueren Forschung. Principat. Religion. Hellenistisches Judentum in römischer Zeit. Philon und Josephus. Teil 2. Bd. 21, 1984
-W. R. Morfill: The Book of the Secrets of Enoch, 1896
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