Memórias Póstumas de Sra. N.M.S.OFiled Under: Depoimentos, Testemunhas de Jeová, Torre de Vigia
Nasci em um casebre no interior do Paraná, cidade onde fazia muito frio. Fui a segunda de sete filhos, três mulheres e quatro homens. Aos nove anos fui para São Paulo trabalhar como faxineira onde dormia no emprego e não tinha direito nenhum, a não ser o de trabalhar a qualquer hora do dia ou da noite.
Fui crescendo nesse ritmo, e com isso sempre fui muito trabalhadora, mesmo não tendo concluído os estudos, pois fiz até o 4º ano primário.
Aos 24 anos me casei com um homem sério (J.B.O.) e que tinha os mesmos desejos de vida que eu, ou seja, termos uma família. Em 1977 conheci uma vizinha que era Testemunha de Jeová, e sendo ela muito simpática, comecei a estudar a bíblia com ela. Fiquei realmente muito surpresa com o que eu aprendia, visto que eu era muito sozinha, pois meu marido gostava muito de jogar bola e me deixava nos finais de semana com nossa única filha, ainda bebê. E essa senhora foi me fazendo companhia. Até que em 1980, eu com minha segunda filha já com dois meses, resolvi me batizar.
Meu marido foi contra, pois eu tinha parado de fumar por causa dos estudos bíblicos, apesar de ele ter me pedido tanto para fazer isso. E ainda mais pelo fato de eu agora sair regularmente de casa para fazer o serviço de pregação. Mas os maridos das irmãs sempre iam à minha casa para fazer amizade com ele e trazê-lo à verdade.
E conseguiram, pois cerca de três ou quatro anos depois ele veio a se batizar. E se tornou um dos membros mais fervorosos e ativos na congregação, sendo designado ancião com três anos de batismo. Éramos uma família feliz. Eu me tornei pioneira de tempo integral, e ele, ancião presidente da congregação.
Com isso nossas filhas cresciam dentro da organização, e nós decidimos que elas deveriam ser batizadas logo, pois precisavam da proteção de Jeová para não ser envolvidas com os colegas de escolas. Não deixávamos elas irem a excursões de escolas, os trabalhos escolares sempre eram feitos em casa, com nossa ajuda.
Nossa filha mais velha se batizou aos 11 anos. Que alegria foi aquele dia! Porém, o que não imaginávamos era o quanto ela seria perseguida por ter tomado essa decisão. Ela era ridicularizada no salão, pois além de batizada ela era filha de ancião, e não podia fazer nada que “ofendesse” a consciência dos outros que já era apedrejada. E eu confiava em minha filha, e confiava na educação que eu tinha dado a ela. Ela era pra mim o meu orgulho! Sempre que podia saía de pioneira auxiliar, dava os melhores comentários, estudava a bíblia com a ajuda das publicações e era muito aplicada. Executava as partes que lhe eram designadas com zelo e carinho, e sempre era elogiada por todos. Mas, ela sempre fora autêntica, e isso incomodava. Minha outra filha mais nova, era muito meiga, sempre levava tudo com calma e nunca era vista com maus olhos. Batizou-se com 16 anos e levava uma vida sem muito destaque. Mas também me orgulhava dela, pois nunca manchou o nome de seu pai.
Certa vez, minha filha mais velha foi chamada ao salão para uma conversa com os anciãos, visto que ela estava envolvida sentimentalmente com um jovenzinho de nossa congregação. Mas, devido a pouca idade dela, não pensei que isso fosse algo realmente sério. E só percebi o quão sério tinha sido, quando ao chegar do salão, ela não quis conversar! Simplesmente se recolheu a seu quarto, se negando a pronunciar uma palavra. E eu do lado de fora só ouvia seus soluços. Quanto indaguei ao meu marido sobre o que poderia ter acontecido, ele só me respondeu que os anciãos tinham-na aconselhado e que ela deveria estar sentindo muito arrependida. Só soube do resultado dessa comissão cerca de um ano depois, quando ela resolveu me contar, pois eu era sua melhor amiga. E realmente fiquei chocada. Não podia acreditar que tinham feito isso com uma garotinha de idade escolar e principalmente com total anuência do pai!
Jamais o perdoaria por isso.
Depois desse ocorrido, ela nunca mais foi a mesma. Perdeu todo o entusiasmo, e começou a questionar coisas que nunca tinham passado pela minha cabeça. Mas eu como serva leal de Jeová, não poderia deixar isso me abalar. Tinha a obrigação de trazê-la de volta.
E o tempo foi passando, e eu me sentindo sempre relegada a segundo plano. Meu marido ao se tornar superintendente presidente da congregação, quase nunca estava presente na mesa conosco. Sempre em visita de pastoreio, sempre ajudando os membros da organização e nossa família sempre em segundo plano. Resolvi então tomar a dianteira do meu lar. Era enfim o que eu mais prezava na vida inteira! Minha família!
E continuei assim, ele sendo ancião e cuidando da congregação, e eu cuidando de minhas filhas e dele próprio. Não tinha mais tempo pra nós, sempre que sentávamos pra conversar ele tinha problemas congregacionais para conversar comigo, exceto os segredos dos anciãos. E isso foi nos distanciando, apesar de eu me negar a ver isso.
Até que um dia nossas filhas decidiram não mais freqüentar as reuniões, serviço de campo e todo o resto. Aquilo foi como um punhal no coração de meu marido, porém eu entendia perfeitamente o que estava acontecendo, e se eu pudesse, se não fosse a submissão ao meu marido e cabeça, eu teria ido junto com elas. Já não podia compactuar com algumas atitudes e crenças, e ter de pregar aquilo era pra mim um suplício. E eu resolvi fazer à minha maneira. Passei a ajudar as pessoas que precisavam de apoio. Comecei a me dedicar a isso, e assim encontrei uma razão para continuar dentro da organização.
Mas, no segundo semestre de 2006 eu adoeci gravemente. E por causa de algumas doutrinas das quais eu também não concordava, eu acabei ficando sem alguns tratamentos vitais para a minha sobrevivência, vindo a falecer no final deste mesmo ano.
Mas antes do último suspiro, eu disse às minhas filhas que elas tinham tudo o que era suficiente para sobreviverem sem mim, dentro delas. Tudo o que eu ensinei estava muito vivo em seus corações e que eu confiava que elas se sairiam muito bem. Disse também que não seria muito fácil, pois saberia que ficariam sozinhas e não teriam o apoio do pai.
Minha mensagem deixada para minhas filhas foi:
Formem suas famílias e que elas se tornem a razão da vida de vocês! Pois serão as únicas pessoas que estarão com vocês SEMPRE! Escolham maridos que olhem para a mesma direção que vocês! E assim, nunca ficarão sozinhas!
ps.: Realmente foi difícil ficar sem nossa mãe, e realmente ficamos sozinhas. Dissociamos-nos, fomos abandonadas por nosso pai, que não nos deu o menor apoio. Mas seguimos seu conselho, e a despeito de alguns erros, hoje somos felizes e com a estrutura que ela nos deu, formamos nossa família feliz!
Com muito carinho, respeito e veneração,
Suas filhas, A.C.O. e J.D.O.
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- Alessandra
- 8 fev 2009 10:03 PM
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